
Osmar Furlan e amigos: Peregrinos em Santiago de Compostela
26 de janeiro de 2016
Partindo do Brasil até a Itália
19 de março de 2017Livro: Educadores Sociais – A importância da Formação na implementação de Tecnologias Sociais
Ao ler livros que considero interessantes, costumo destacar trechos e postar neste Blog para que mais pessoas possam tomar conhecimento do mesmo, e, quem sabe, despertar nestes o interesse de ler o livro na íntegra.
Mas antes, gostaria de contextualizar o porquê desta leitura.
Como nada é por acaso, em agosto de 2015, eu e vários outros colegas aposentados tivemos a oportunidade de participar de um programa do Banco do Brasil para capacitar a exercer o voluntariado na área da educação. Assim, ficamos em Brasília durante uma semana fazendo o Curso de Formação de Alfabetizadores para atuar no programa do BB Educar – Integração.
Você pode estar se perguntando – o que é o BB Educar?
É um programa de alfabetização de jovens e adultos da Fundação Banco do Brasil.
A Fundação Banco do Brasil, desde 2003, foca suas ações na difusão do conceito de tecnologias sociais e na reaplicação destas nas áreas de geração de renda, meio ambiente, educação e cultura.
Assim, eu, juntamente com dois colegas moradores do litoral de Santa Catarina (que ainda não nos conhecíamos até aquele momento) e mais outros 91 colegas, das mais diversas regiões do Brasil, tivemos a grata satisfação de vivenciar esta empolgante experiência.
Agora, também nos intitulamos “educadores sociais” e nos propomos a contribuir com a superação do analfabetismo no País.
Todos nós assumimos o compromisso de constituir pelo menos um núcleo de alfabetização em nossas comunidades.
Ao nos situarmos sobre o assunto, vimos que, conforme o relatório do IBGE feito em 2012 e divulgado em 2013, a taxa de analfabetismo de pessoas com 15 anos ou mais no Brasil foi estimada em 8,7% o que corresponde a 13,2 milhões, ocupando a 8º posição no ranking de países com maior número de analfabetos adultos.
Mas afinal, como está a região sul do Brasil, que é onde iremos atuar, no quesito ‘analfabetos adultos’ ?
Conforme a fonte Pnda de 2013, a região sul apresenta 4,2% de analfabetos com mais de 15 anos. E Santa Catarina está um pouco abaixo disso ( o que é bom): cfe censo de 2010 – 3,86% – de analfabetos acima de 15 anos.
VAMOS AO LIVRO!
O livro ‘Educadores Sociais – A importância da Formação na Implementação de Tecnologias Sociais’ possui 21 artigos de reflexões e depoimentos sobre a importância da formação de educadores sociais e sua atuação nos programas da Fundação.
Ao ler a ‘Apresentação‘ retirei alguns trechos da fala de Jorge Alfredo Streit, então presidente da Fundação Banco do Brasil:
“A superação da pobreza é um desafio de toda a sociedade brasileira. Não se trata apenas de viabilizar novos níveis de renda e sobrevivência, mas, antes, de materializar o acesso à cidadania para todos, pois a pobreza é feita de fome, baixa autoestima, escolaridade precária e falta de perspectivas.”
“A FBB acredita que o caminho para a inclusão social se inicia com a alfabetização, passa pela educação conscientizadora e chega até o desenvolvimento da competência para operar com as tecnologia de informação e comunicação. Essa crença se consubstancia nos três eixos fundamentais de atuação da Fundação: alfabetização de jovens e adultos, complementação educacional e inclusão digital.”
No artigo ‘A Formação do Educador Social e as Bases da Educação para um Mundo Melhor’, o autor, Maurício Serva cita:
(….)”Em particular, o educador social, cuja base laboral envolve indivíduos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, vê a sua própria formação assumir uma importância ímpar, uma vez que ele exerce um papel de destaque na construção de uma sociedade mais justa.”
Ao falar sobre os quatro grandes eixos da educação para o século XXI, escreve o seguinte:
Aprender a ser
Segundo o relatório da UNESCO, é o primeiro eixo da aprendizagem indispensável a ser adotado pela política educacional de todos os países. Essa meta de aprendizagem implica o desenvolvimento da autonomia e da solidariedade no indivíduo, bem como a construção de um projeto de vida que leve em conta o bem-estar pessoal e da comunidade.
A referida meta é totalmente compatível com os princípios que regem a ação do educador social, uma vez que a autonomia e, ao mesmo tempo, a solidariedade estão entre seus valores essenciais.
(….) Iniciativas de ensino-aprendizagem podem incentivar a concepção de alternativas de vida e trabalho para inúmeras pessoas que acreditam na transformação das relações entre os homens por meio da expansão das oportunidades de realização pessoal.
Ele cita ainda Carl Rogers: Para o célebre psicólogo americano, Carls Rogers, a educação libertadora das potencialidades humanas deveria ser, necessariamente, um processo de ajuda ao indivíduo para que ele se torne uma pessoa aberta à própria experiência. Essa seria uma pessoa que vive de forma existencialmente plena, isto é, livre de preconceitos e disposta a mudanças. Por conseqüência, torna-se autoconfiante, autêntica e responsável pelos seus atos.
(….) O foco inicial na pessoa do educador social em si, no seu crescimento enquanto ser autônomo e autodeterminado, porém socialmente responsável, é proposto aqui como um dos fundamentos complementares para a sua formação. Somente se é para o outro, quando se é plenamente também para si.
Aprender a conviver
Diz respeito ao crescimento do indivíduos enquanto membro de grupos e de comunidade. Para tanto, as capacidades de se comunicar, interagir, participar e cooperar devem ser aperfeiçoadas nesse indivíduo. Isso significa que o processo educacional deve desenvolver as habilidades individuais necessárias ao fortalecimento da ação grupal, tais como a decisão em grupo, a valorização das diferenças e a gestão de conflitos.
Aprender a fazer
(….) Trata-se acima de tudo, de um apelo à prática, lembrando que a educação deve habilitar o indivíduo para o trabalho na perspectiva das exigências que transformaram o labor no último quarto de século, dentre elas, ressalta-se o trabalho em equipe e a iniciativa.
Cita Paulo Freire: “a educação é uma forma de intervenção no mundo.”
(….) Os saberes e as práticas desenvolvidos pelas comunidades, desde que fiéis aos valores e ideais que norteiam os Direitos Humanos, poderão engendrar formas criativas de intervenção no mundo, construindo alternativas ao individualismo e à injustiça social que impregnam perigosamente o tecido social.
Aprender a aprender
(….) Chama a atenção para um processo educacional permanente que desperte e mantenha viva a curiosidade intelectual, o sentido crítico, que possibilite a compreensão do real e aumente a capacidade de discernimento. Esse eixo põe em evidência a educação enquanto meio para que o indivíduo construa suas próprias bases e atitudes para aprender ininterruptamente ao longo de toda a sua vida.
(….) A permanência da educação se justifica não só porque o mundo atual adentra a chamada “era do conhecimento”, mas, acima de tudo, porque a educação é a mola mestra da compreensão do real e do discernimento.
(….) Quanto à compreensão do real e à ampliação da capacidade de discernimento, ambas embutidas na noção de aprender a aprender, Edgar Morin prega a adoção de uma ‘ética da compreensão’ na educação. Essa dimensão ética permitiria compreender o outro através da tomada de consciência da complexidade e da diversidade humana. Nesse sentido, a abertura ao outro e a tolerância propiciariam a aceitação de estilos de vida, de valores e de culturas diferentes dos nossos.
Ao lado dos quatros eixos estabelecidos pela Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI, divulgados pela UNESCO com vistas à educação integral do ser humano – aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a aprender -, proponho alguns fundamentos complementares para a formação do educador social: 1) o foco na pessoa do educador social em si, no seu crescimento enquanto ser autônomo e autodeterminado, porém, socialmente responsável; 2) a aprendizagem sobre as práticas concretizadas nas atividades cotidianas das próprias comunidades em que esses educadores atuam; 3) a adoção da ética da compreensão; 4) o desenvolvimento da aptidão democrática para lidar com lógicas de ação coletiva diversas, numa concepção de sociedade multicêntrica.
‘Formação de educadores sociais na Fundação Banco do Brasil: limites e possibilidades’, Marcos Fadanelli Ramos escreve neste segundo artigo:
(….) Avaliações da ONU mostram que o crescimento dos investimentos em educação, em muitos países, não tem sido acompanhado do correspondente incremento nos níveis de qualidade da educação. No Brasil, em que pesem os avanços recentes na política educacional, ainda são grandes os desafios do Estado e da sociedade civil. Não apenas para elevar a educação a novos patamares de qualidade, mas também para levar a educação a todos os cantos de um país de dimensões continentais, com comunidades vivendo ainda em isolamento, quando não geográfico, psicológico e político.
(….) Na Fundação Banco do Brasil perseguimos esse ideal, procurando tratar desigualdades no campo educacional. Fizemos a opção de atuar onde o Estado, historicamente, esteve ausente e as políticas públicas ainda são pouco sentidas. Lugares em que as populações precisam de recursos, atenção, afeto, enfim, de condições objetivas e subjetivas para que sua realidade se transforme.
(….) Paulo Freire (1987), ao abordar a dimensão política do papel dos educadores, sempre destacou a importância de saberem com quem estão em sala de aula, o que teriam que fazer, o porquê de sua ações e, sobretudo, a serviço do que estariam suas práticas. Nesse sentido, nossos cursos de formação, presenciais ou a distância, os encontros bienais de educadores ou oficinas são planejados e conduzidos com base nos seguinte pressupostos:
- Educando como sujeito – O educando é sujeito do processo de aprendizagem. Tem motivações e expectativas que precisam ser consideradas pelos educadores. E estes devem estimular o exercício da crítica em relação ao conteúdo e ao processo de aprendizagem.
- Educando como um ser de história e de cultura – Em sala de aula, recebemos pessoas que tem trajetórias de vida, experiências diversificadas e valores que devem ser respeitados. O educador faz a mediação entre o educando e o conhecimento, criando um ambiente em que as diferenças são aceitas e podem ser discutidas.
- Educador como mediador – O educador deve desenvolver a sensibilidade para conhecer a si mesmo e aos educandos. A partir desse conhecimento, precisa criar estratégias dinâmicas que contribuam para despertar a curiosidade e o desejo de aprender.
- Educador competente e transformador – Os educadores sociais devem ter competência científica e buscá-la continuamente por todos os meios. E devem ter consciência política, ou seja, compreender o seu papel de agente emancipatório que contribua para que as pessoas possam fazer escolhas autônomas e conquistem a qualidade de vida a que todo cidadão tem direito. Para isso, o educador deve estar motivado e envolvido com o que faz.
- Aprendemos pelo diálogo – Nossas práticas devem ser baseadas no diálogo que respeite a diversidade e promova o confronto de idéias e opiniões de modo a possibilitar um processo reflexivo que favoreça a produção de conhecimento, pois aprendemos com o outro.
- Aprendemos a partir do que já sabemos – Conhecer o que nossos educandos sabem é fundamental para estabelecer conexões entre saberes e construir estratégias que levem a novas aprendizagens. Por essa razão, os desafios propostos não podem envolver conhecimentos que estejam em um grau de dificuldade tão alto que desestimulem ou tão baixo que não motivem o aluno a aprender.
- Aprendemos problematizando a realidade – Partindo da realidade dos educandos, os educadores podem problematizá-la, em conjunto com os próprios educandos, para construir coletivamente um conhecimento significativo para cada um e socialmente útil.
- Aprendemos com autonomia – Todo adulto aprende com um certo grau de autonomia, ou seja, tem um potencial que deve ser explorado em nossas estratégias de ensino presencial ou a distância, de modo a tornar esse aprendizado cada vez mais autônomo.
O autor detalha várias ações trilhadas na FBB e cita alguns dos desafios necessários para a continuidade cada vez mais eficaz deste programa educacional.
‘ O educador social e sua atuação na economia solidária no âmbito da Fundação Banco do Brasil’, Fernando da Nóbrega Júnior discorre sobre Economia Solidária:
(….) Segundo Paul Singer (2002), a economia solidária se caracteriza por propor outro modo de produção, que se caracteriza principalmente pelos seguintes princípios: a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade individual. Ocorrem, nesse campo, relações de colaboração solidária, inspiradas por valores culturais que colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica.
Para a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), economia solidária é um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver, sem explorar os outros, sem destruir o ambiente, cooperando e fortalecendo o grupo, sem patrão nem empregado.
(….) Está embasada em princípios de solidariedade entre os agentes socioeconômicos, produtores e consumidores. Tem em si algumas categorias fundantes que podem ser assim expressas:
- Posse e/ou controle coletivo dos meios de produção, distribuição, comercialização, consumo, poupança e crédito.
- Gestão democrática, transparente e participativa.
- Distribuição igualitária dos resultados (sobras ou perdas) econômicos.
(….) Os processos educativos para o desenvolvimento de competências e empoderamento desses segmentos, por vezes pertencentes às classes menos favorecidas da sociedade, são árduos e requerem obstinação e persistência.
O autor faz uma ampla abordagem sobre as diferenças entre a educação formal, a não formal e a educação informal, citando que entende que o tipo utilizado em empreendimentos de economia solidária, apoiados pela FBB, é predominantemente não formal.
(….) A educação não formal é consonante com o que o educador Paulo Freire denominava de educação libertadora e emancipadora.
(….) Conforme Freire:”Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1987, p.79).
O educador social e sua formação
O educador social tem que ter clareza que o centro da educação está no outro, que se torna a figura principal do processo educacional. O grande educador Paulo Freire defendia que, nesse contexto, “o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa” (1987, p.68). Assim, ambos crescem juntos. Freire, em Pedagogia da Autonomia, enfatiza que “saber ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (1996, p.47).
(….) Os educadores sociais são importantes para dinamizarem e construírem o processo participativo com qualidade, por meio de diálogos autênticos e verdadeiros. Para tanto, é importante que apresentem as características a seguir listadas:
- Flexibilidade para lidar com o novo e com as diferenças.
- Vontade de trabalhar com grupos heterogêneos, quanto a expectativas, sonhos, escolaridade, experiências e linguagem.
- Capacidade de falar ao outro e não agredi-lo ou desmerecê-lo com os saberes que traz.
- Disposição para buscar continuamente novos conhecimentos que apoiarão a sua atuação como educador.
(….) É bom registrar que não é o educador que vai levar aos grupos um saber novo, a partir do qual eles vão reorientar suas vidas. O saber do educador vai estimular que outros saberes dos participantes do empreendimento surjam e possam ser apropriados por eles de uma forma articulada (….).
E o autor encerra o artigo com um belíssimo parágrafo, o qual, transcreverei na íntegra:
Comenta-se que a pessoa cumpre seu papel na vida quando constitui família e tem filhos, planta uma árvore e escreve um livro. Não deixa de ser uma pretensa forma de perpetuar a existência. Nessa busca pela eternidade, diz-se que os educadores são pessoas privilegiadas, uma vez que, por meio de processos educativos, conseguem ir imprimindo aprendizagens no âmago de outros: escrevem no espírito. Ao se desprenderem do mundo físico, deixam algo imaterial que alcança o eterno, pois se prolonga numa corrente contínua de formação de novos saberes. Os educadores sociais se inserem nesse contexto. São protagonistas que podem fazer a diferença na vida de outros, realizando registros no intangível.
No capítulo dois, o primeiro artigo é de Moacir Gadotti: ‘Desafios da formação de alfabetizadores’:
(….) Todos sabemos que o fim do analfabetismo não é só responsabilidade do governo federal: é responsabilidade das três esferas de governo, da sociedade e dos próprios analfabetos. Mas é inaceitável, seja quem for o responsável, que o direito humano à educação seja negado duas vezes a 15 milhões de brasileiros. O analfabetismo é uma ofensa ao direito de cidadania: é como negar o direito humano à comida, à liberdade, o direito a não ser torturado. Será que devemos esperar que os analfabetos morram para que as estatísticas melhorem? Nesse contexto, como fica a formação de alfabetizadores?
Possibilidades de transformação
Mesmo depois de 50 anos de criação do Método Paulo Freire, ainda existem materiais didáticos utilizados em programas de EJA que não superaram a visão infantilizada da educação de adultos. É uma humilhação para um adulto ter que estudar como se fosse uma criança, renunciando a tudo o que a vida lhe ensinou. É preciso respeitar o aluno por meio de uma metodologia apropriada, uma metodologia que resgate a importância da sua biografia.
(….) O analfabetismo é a expressão da pobreza, conseqüência inevitável de uma estrutura social injusta. Seria ingênuo combatê-lo sem combater suas causas.
(….) O analfabetismo não é uma doença ou “erva daninha”, como se costumava dizer entre nós. É a negação de um direito, ao lado da negação de outros direitos. O analfabetismo não é uma questão pedagógica, mas uma questão essencialmente política.
(….) Os educadores precisam fazer o diagnóstico histórico-econômico do grupo ou comunidade onde irão trabalhar e estabelecer um canal de comunicação entre o saber técnico (erudito) e o saber popular. É preciso entender, conhecer profundamente, pelo contato direto, a lógica do conhecimento popular, sua estrutura de pensamento, em função da qual a alfabetização ou a aquisição de novos conhecimentos tem sentido.
O autor descreve ainda a experiência do MOVA – Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos da Cidade de São Paulo. Abaixo, alguns trechos:
(….) Criado por Paulo Freire em 1989, quando ele foi Secretário Municipal de Educação em São Paulo, reunia três condições básicas para que um programa de educação de jovens e adultos pudesse ter êxito: vontade política da administração, empenho e organização dos movimentos sociais e populares, e apoio da sociedade.
(….) O MOVA pode ser considerado como uma tecnologia social em seu sentido amplo, já que ela pressupõe a participação dos sujeitos beneficiados pelo projeto ou produto desde a sua organização e implementação até a sua avaliação final. As tecnologias sociais buscam o desenvolvimento autônomo das comunidades em suas diferentes demandas: alimentação, habitação, renda, educação, energia, saúde, meio ambiente, etc, fazendo dialogar o saber técnico-científico com o saber popular.
(….) Considerar a educação como um direito humano nos obriga a rever nossos sistemas educacionais e nossos currículos em função de uma outra educação possível, uma educação para o desenvolvimento humano pleno e integral, uma educação para a cidadania e a justiça social. Mais solidária e menos competitiva. As pessoas não precisam competir para progredir, como nos videogames, onde quem mata mais, mais avança, ganha mais bônus. Precisamos de uma educação cidadã, emancipadora, que é o oposto da educação que promove o individualismo. Precisamos cooperar para progredir.
Outro artigo muito interessante: ‘Saberes do alfabetizador: Superando o Preconceito Lingüístico’ – Maria Tereza Secco
(….) No Programa BB Educar, assumimos o compromisso com a concepção de Educação Libertadora. Esta vê a educação como processo, o educando como sujeito que faz história e o educador, também sujeito histórico, exercendo o papel de mediador nesse processo. A Educação Libertadora é instrumento de transformação de uma ordem social injusta, buscando a humanização dos seres humanos.
Paulo Freire (1993) nos diz que todo educador deve ter competência científica e clareza política. Isso implica que a formação de educadores deve, obrigatoriamente, tratar dessas duas dimensões.
No caso da alfabetização, competência científica significa conhecer como se dá o processo de construção de conhecimento sobre a língua escrita, estar atento aos saberes que educandos e educandas trazem para a sala de aula e às hipóteses que eles já formularam ao longo de sua existência sobre a escrita (o que a escrita representa e como se dá essa representação). O educador precisa saber como se faz a mediação entre o que o educando já conhece e o que precisa conhecer.
A clareza política está em saber a favor de quem se educa. Para Paulo Freire (1993), todo educador é um sonhador político, pois sonha com um modelo de sociedade que é político. Ele educa a favor ou contra o modelo político vigente. (….) Por isso, a prática educativa não é neutra, pois, mesmo quando se omite, o educador toma uma posição política: a de deixar tudo como está.
Questionamento aos preconceitos
(….) Nem sempre enxergamos os preconceitos que carregamos. Assim, a reflexão sobre a prática educativa deve, também, contemplar esse aspecto. Em sala de aula, não podemos nos omitir diante de falas ou de textos que expressem desrespeito ou menosprezem pessoas seja por questão de raça, de gênero, de orientação sexual, de origem geográfica, de classe social, entre outras.
(….) Nos processos de colonização, o que vem da metrópole é visto como o certo, o modelo a ser seguido. O que é produzido na colônia é vulgar, inferior. Até hoje valorizamos o que vem do “estrangeiro”, o que é importado, e desprezamos o que é produzido localmente, inclusive a linguagem. As conseqüências são: pessoas que não pertencem à classe dominante são tidas como ignorantes, seus saberes são considerados inferiores. Quem fala “certo” é a elite, o povo “não sabe falar”. Puro preconceito. As elites se esquecem de que a Língua Portuguesa tem sua origem no latim popular, falado pelos soldados do exército romano, e não no que era falado pela elite romana.
(….) Ao dizerem “eu não falo direito”, “quero aprender a falar certo”, estão denunciando o preconceito de que são vítimas e, ao mesmo tempo, se achando inferiores, pois a variedade linguística que dominam não é a socialmente prestigiada.
Riqueza dos falares e saberes
Para superar essa visão, é preciso que o educador conheça nossa história, como se deram os processos de dominação, como a riqueza de poucos foi construída com o suor e o sangue de muitos, por que existe a concentração de renda, de terra, de poder e de saber.
(….) Para o aluno que fala uma variedade lingüística que não é a padrão, a ensinada na escola é como se fosse uma língua estrangeira.
Em vez da noção de “erro” que está vinculada à idéia de um padrão rígido, Bagno (2004, p.130) propõe ao professor de língua materna que trabalhe com seus alunos a linguagem adequada ao interlocutor e ao contexto em que é usada. Não se fala com uma criança da mesma maneira que com um adulto, um jovem ou um idoso. Logo, “tudo vai depender de quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por quê e visando que efeito” (Bagno, 2004, p.131).
(….) O círculo de cultura, por exemplo, possibilita aos educandos se expressarem oralmente sem medo de errar ou de serem ridicularizados por não dominarem a variedade “padrão”. Além de valorizar a cultura popular, o círculo de cultura promove o diálogo: os participantes emitem opiniões, falam, ouvem, compartilham e organizam idéias.
(….) Na escrita, é preciso superar o medo de escrever que os educandos trazem, acreditando que “só posso escrever certo”. Esse pensamento bloqueia a livre expressão, a criatividade e torna o ato de escrever um tormento. Por isso é importante deixá-los à vontade, conversar antes para encontrar idéias e organizar o pensamento, valorizar a clareza de idéias, a objetividade e a criatividade.
‘ O Combate ao Analfabetismo: a experiência da Fundação Banco do Brasil ‘– artigo escrito por Paulo Henrique Areias Mendes
(….) O BB Educar
Dentre os projetos de Educação da FBB, destacamos o Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos (BB Educar). Esse programa consiste na formação de alfabetizadores que assumem o compromisso de construir núcleos de alfabetização nas comunidades em que atuam.
(….) Em janeiro de 1992, o Banco do Brasil colocou o programa a serviço da sociedade, por meio de sua rede de agências, e, a partir do ano de 2000, passou a ser coordenado pela Fundação Banco do Brasil. O programa está presente em todo o País e, desde sua criação, já atendeu cerca de 600 mil alfabetizandos e formou mais de 31 mil alfabetizadores.
A metodologia do Programa BB Educar é concebida com base nos princípios de uma educação libertadora e na prática da leitura do mundo, considerando a realidade do alfabetizando como ponto de partida do processo educativo. Essa metodologia identifica-se com:
- os princípios filosóficos e políticos de educação, concebidos por Paulo Freire;
- os fundamentos epistemológicos do processo de conhecimento de Jean Piaget;
- os estudos psicolinguísticos de Emília Ferreiro; e
- a realidade histórica, política, socioeconômica e cultural do alfabetizando, considerados por Vygotsky.
O tamanho do desafio
(….) Ainda estamos com o mesmo número absoluto de analfabetos da época em que Paulo Freire foi exilado, em 1964: aproximadamente 15 milhões. (….) A redução do analfabetismo não tem merecido a mesma atenção dada às outras modalidades de ensino.
(….) Antecipando-se aos dados do IPEA (2010), que mostram a disparidade entre as regiões brasileiras, o BB Educar, a partir de 2008, entra numa nova fase, passando a atender as comunidades tradicionais e/ou preexistentes, tais como: quilombolas, comunidades indígenas, catadores, assentados e os públicos atendidos pelos programas de geração de trabalho e renda.
(….) Quilombolas e indígenas: essas comunidades possuem suas especificidades, porém as duas apresentam características comuns: a exclusão social e a luta intensa para assegurar a posse da terra e manter vivas suas crenças e culturas.
A Formação do educador social e a Pedagogia da Convivência – artigo de Maria Stela Santos Graciani
(….) A exclusão se dá nos planos social, cultural e econômico, e se manifesta na falta de acesso a condições dignas de vida, como habitação, saúde, educação e lazer, causando danos irreparáveis, como a perda da autoestima e da identidade, entre outros.
(….) O grau máximo de exclusão é atingido quando o povo internaliza a cultura dominante, o que ocorre, especialmente, via meios de comunicação. A mídia falseia a realidade e direciona a vontade política da população.
(….) Mudanças consequentes e profundas, porém, apenas acontecem quando há uma ação educativa que questione os valores estabelecidos e proponha novas possibilidades de participação social.
(….) Fazer pedagogia hoje é confrontar-se com a diferença, superar o preconceito e promover a emancipação. A reflexão pedagógica, portanto, deve submeter à crítica preconceitos culturais e educativos; questionar a relação homem-sociedade, homem-mulher e homem-meio ambiente; propor novos valores e modelos antropológicos e culturais, promovendo, com isso, a compreensão, a tolerância, o respeito e o intercâmbio multicultural.
Nesse contexto, ganha relevância o trabalho do educador social, especialmente por atuar além das iniciativas convencionais de ensino, o que lhe permite desenvolver, com mais radicalidade, práticas pedagógicas alternativas, direcionadas à transformação da realidade. Para essa missão, é preciso coragem, intuição, percepção, compromisso social, maturidade pedagógica e capacidade de trabalho em grupo.
(….) Para romper com práticas educativas equivocadas e discriminatórias, convém adotar, na formação do educador social, uma visão de mundo profunda e crítica, como a proporcionada pelo pensamento complexo (Morin, 1998), que não fragmenta a realidade em relações binárias (mal/bem, oriente/ocidente, certo/errado), mas a vê com entrelaçamento inter-relacionados em que cada elemento depende do outro.
(….) Com essa visão crítica e transformadora, busca-se entender as causas dos fenômenos e identificar seus efeitos para poder resistir criativamente à banalização do mal, das violências, às explorações sociais que há muito tempo tem, de forma avassaladora, atingido o mundo inteiro, como guerras, devastação ambiental, preconceitos religiosos, entre outros.(….) Quando nos sentimos acolhidos, ouvidos, valorizados, integrados e amados, desenvolvemos a autoestima e nos disponibilizamos para a aprendizagem.
Visibilidade e inclusão
A negação do outro, diferente de mim, tem sido considerada, no mundo contemporâneo, um dos piores fatores geradores de conflitos sociais, dissabores pessoais, revoltas e agressões, entre outros. A invisibilidade do outro que está ao meu lado é um dos componentes do processo da exclusão, seja ela causada por preconceito étnico, cultural, religioso, por discriminação de gênero, opção sexual ou desigualdade social.
(….) Olhar, reconhecer e acolher o outro significa percebê-lo sob várias e diversificadas dimensões expressivas: na linguagem escrita, falada, na expressão corporal, na produção de imagens e símbolos, enfim, em todas as possibilidades através das quais possa se expressar.
Cada pessoa se identifica com uma linguagem, ou seja, com uma forma de expressão. Por isso, é importante que o educador social seja motivado e preparado a experimentar diferentes linguagens, como teatro, música, dança, desenho, pintura, dobradura, colagem, expressão corporal e outras técnicas.
(….) Quando os seres humanos atingem, pelo convívio, a felicidade solidária compatível com a dignidade humana, essa felicidade se eterniza na própria essência do viver.
(….) Essa experiência amorosa do ser humano, concretizada em experiências diversificadas na vida e particularmente na educação, necessita ser colocada no epicentro existencial, uma vez que possui a capacidade dinâmica de mover nossos sonhos, nossas utopias, nossas perspectivas.
‘Combate à violência na família, escola e comunidade’ – artigo de Mathias Gonzalez
(….) Diz-nos a pesquisadora Marilena Chauí:
Em nossa cultura a violência é entendida como o uso da força física e do constrangimento psíquico para obrigar alguém a agir de modo contrário à sua natureza e ao seu ser. A violência é violação da integridade física e psíquica, da dignidade humana de alguém. Eis que o assassinato, a tortura, a injustiça, a mentira, o estupro, a calúnia, a má-fé, o roubo são considerados violência, imoralidade e crime. (Chauí, 2000, p.337).
(….) O neuropsicólogo norte-americano James W Prescott aponta para outra etiologia da violência:
A privação do prazer físico-sensorial é a principal causa da violência. Experiências com animais em laboratórios revelam que prazer e violência tem uma relação recíproca: a presença de um inibe a do outro. Entre os seres humanos, uma personalidade predisposta ao prazer raramente demonstra comportamentos agressivos, já uma personalidade violenta tem pouca capacidade para tolerar, experimentar ou apreciar atividades prazerosas. (Prescott, 1975, p. 239).
Aquisição de competências de intervenção
(….) É essencial que os educadores sociais ressignifiquem seus papéis e desenvolvam competências de intervenção, como facilidade de comunicação, dinamismo, criatividade, liderança e iniciativa, para realizar com eficácia o trabalho de mediador no grupo de alunos sob sua responsabilidade.
(….) Não existe receita pronta quando se trata da imensa mutabilidade, imprevisibilidade e demandas das necessidades humanas, especialmente de crianças e adolescentes. Apesar disso, os educadores devem tratá-los de forma que eles se percebam como sujeitos livres e responsáveis por seus atos. O educador social deve ter embasamento teórico e experiência prática para tal. Encontrar respostas não significa resolver o problema, mas, sim, desencadear ações para que ele seja solucionado.
(….) Ao propor idéias que possam melhorar a condição de vida comunitária, ao emitir opiniões e sugestões sobre como tornar o bairro, a cidade, o país e o mundo melhor, o educador estará promovendo uma cultura de paz e combatendo a raiz da violência.
(….) A educação social tem capacidade metaeducativa, na medida em que auxilia o educador a lidar om a resiliência, a desenvolver sua capacidade de superação das adversidades e a resistência às frustrações, a reagir, deixar o sofrimento para trás e recuperar-se em prol de uma causa maior. E encerro esta matéria com uma colocação de Carl Rogers: “A única coisa que se aprende e realmente faz a diferença no comportamento da pessoa que aprende é a descoberta de si mesma.”

