
Viagem a Santiago de Compostela postado por Sander
11 de novembro de 2014
Geléia de Morango…….produzida por Maristela
3 de março de 2015MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS
-Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem
Clarissa Pinkola Estés
INTRODUÇÃO
Os lobos sempre rondaram o universo da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, em sonhos ou mesmo na vida real. Ao estudar esses animais, ela observou várias semelhanças entre a loba e a mulher, principalmente no que se refere à dedicação aos filhos, ao companheiro e ao grupo. Ao longo do desenvolvimento da civilização, porém, esses instintos mais naturais – a que ela dá o nome de Mulher Selvagem – foram sendo domesticados, sufocando todo o potencial criativo da alma feminina.
Medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais frequentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. Esse problema, no entanto, não é recente, acredita a psicóloga Clarissa. Ele veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico. Mulheres que correm com os lobos identifica a essência da alma feminina, sua psique instintiva mais profunda, com o arquétipo da Mulher Selvagem, e propõe o resgate desse passado longínquo, como forma de atingir a verdadeira libertação.
Uma mulher saudável assemelha-e muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fanstasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida.
A Mulher Selvagem carrega consigo os elementos para a cura; traz tudo o que a mulher precisa ser e saber. Ela dispõe do remédio para todos os males. Ela carrega histórias e sonhos, palavras e canções, signos e símbolos. Ela é tanto o veículo quanto o destino.
(….) E então, o que é a Mulher Selvagem? Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino. Ela é tudo o que for instintivo, tanto do mundo visível quanto do oculto – ela é a base. Cada uma de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para a nossa vida.
Sobre as histórias/estórias/lendas
(……) As histórias são bálsamos medicinais. Achei as histórias interessantes desde que ouvi minha primeira. Elas têm uma força! Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo – basta que prestemos atenção. A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias. Elas suscitam interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões que fazem aflorar o arquétipo, nesse caso, o da Mulher Selvagem.
(……) Às vezes, várias camadas culturais superpostas desorganizam os esqueletos das histórias. Por exemplo, no caso dos irmãos Grimm (entre outros colecionadores de contos de fadas dos últimos séculos), existe forte suspeita de que os informantes (os contadores de histórias) daquela época à vezes “purificavam” as histórias em consideração aos irmãos religiosos. Também suspeitamos de que os famosos irmãos tenham continuado a tradição de cobrir antigos símbolos pagãos com outros cristãos, de tal modo que uma velha curandeira num conto passava a ser uma bruxa perversa; um espírito transformava-se num anjo; um véu ou coifa iniciática tornava-se um lenço…….Os elementos sexuais eram omitidos. Animais e criaturas prestimosas eram transformados em demônios e espíritos do mal.
Foi assim que se perderam muitos dos contos femininos que continham instruções sobre o sexo, o amor, o dinheiro, o casamento, o parto, a morte e a transformação. Foi assim que foram arrasados e encobertos os mitos e contos de fadas que explicavam mistérios antiquíssimos das mulheres. Da maioria das coletâneas de contos de fadas e mitos hoje existentes foi expurgado tudo o que fosse escatológico, sexual, perverso, pré-cristão, feminino, iniciático, ou que se relacionasse às deusas; que representasse a cura para vários males psicológicos e que desse orientação para alcançar êxtases espirituais.
(…..) Venho estudando padrões arquétipos há mais de vinte anos; os mitos, contos de fadas e o folclore, há muito mais tempo. Acumulei vastos conhecimentos sobre os esqueletos das histórias. É fácil detectar quando está faltando o esqueleto numa história. No transcorrer dos séculos, várias conquistas de nações por outras e conversões religiosas, tanto pacíficas quanto impostas pela força, encobriram ou alteraram a essência original das antigas histórias.
Existem, porém, boas novas. Apesar de todo o desmantelamento estrutural das versões existentes dos contos, um padrão definido e luminoso ainda transparece. A partir dele, podemos realizar uma reconstrução.
(…..) As histórias conferem movimento à nossa vida interior, e isso tem importância especial nos casos em que a vida interior está assustada, presa ou encurralada. As histórias lubrificam as engrenagens, fazem correr a adrenalina, mostram-nos a saída e, apesar das dificuldades, abrem para nós portas amplas em paredes anteriormente fechadas, aberturas que nos levam á terra dos sonhos, que conduzem ao amor e ao aprendizado, que nos devolvem à nossa verdadeira vida de mulheres selvagens e sagazes.
(…..) Este é um livro de histórias de mulheres, apresentadas como marcos ao longo do caminho. Elas são para você ler, refletir e prosseguir na direção da sua própria liberdade natural e conquistada, do seu carinho para consigo mesma, para com os animais, a terra, as crianças, as irmãs, os amantes e os homens. Já vou lhe avisar: as portas para o mundo da Mulher Selvagem são poucas, porém valiosas. Se você tem uma cicatriz profunda, ela é uma porta. Se você gosta do céu e da água tanto que mal consegue aguentar, isso é uma porta. Se você anseia por uma vida mais profunda, mais plena, por uma vida sã, isso é uma porta.
O material contido neste livro foi selecionado para lhe dar coragem. O trabalho é oferecido como um fortificante para aquelas que estão no meio do caminho, incluindo-se as que lutam em difíceis paisagens interiores bem como as que lutam no mundo e por ele. Precisamos nos esforçar para permitir que nossa alma cresça naturalmente até atingir sua profundidade natural. A natureza selvagem não exige que a mulher tenha uma cor determinada, uma instrução determinada, um estilo de vida ou classe econômica determinadas. Na realidade, ela não consegue vicejar na atmosfera imposta do “politicamente correto”, ou quando é forçada a se amoldar a velhos paradigmas obsoletos. Ela viceja em visões novas e integridade individual. Ela viceja em visões novas e integridade individual. Ela viceja com sua própria natureza.
(…..) Para encontrar a Mulher Selvagem, é necessário que as mulheres se voltem para suas vidas instintivas, sua sabedoria mais profunda. Portanto, vamos nos apressar agora e trazer nossas lembranças de volta ao espírito da Mulher Selvagem.
(…..) Para nós a questão é simples. Sem nós a Mulher Selvagem morre. Sem a Mulher Selvagem, nós morremos. Para a verdadeira vida, ambas têm de existir.
Baseada no Conto: O BARBA AZUL – é uma história de “cortes”, de separar para reunir.
Quando as mulheres conseguem emergir da ingenuidade, elas trazem consigo mesmas e para si mesmas algo de inexplorado. Nesse caso, a mulher agora mais sábia procura o auxílio de uma energia masculina interna. Na psicologia junguiana, esse elemento foi denominado animus: um elemento em parte mortal, em parte instintual, e em parte cultural da psique da mulher que se apresenta nos contos de fadas e na simbologia dos sonhos como seu filho, seu marido, um estranho e/ou amante – possivelmente ameaçador, dependendo das circunstâncias psíquicas do momento. Essa figura psíquica tem valor especial por ser investida de qualidades que a criação tradicionalmente extirpa das mulheres, sendo a agressividade uma das mais comuns.
(…..) Quanto mais forte e amplo o animus (pense no animus como uma ponte), com maior estilo, capacidade e desenvoltura a mulher manifestará suas idéias e seu trabalho criativo no mundo exterior de modo concreto. Uma mulher com um animus pobremente desenvolvido tem muitas idéias e pensamentos, mas, é incapaz de manifestá-los para o mundo lá fora. Ela sempre pára a um passo da organização ou da implementação das suas imagens maravilhosas.
(…..) Embora uma grande vertente da psicologia dê ênfase às causas familiares na angústia dos seres humanos, o componente cultural tem o mesmo peso, pois a cultura é a família da família. Se a família da família sofre de várias enfermidades, todas as famílias dentro daquela cultura terão de lutar com os mesmos inconvenientes. Há um ditado que diz que a cultura cura. Se a cultura tem essa propriedade medicinal, as famílias aprendem a curar. Elas lutarão menos, serão mais gentis e carinhosas. Numa cultura dominada pelo predador, toda nova vida que precisa nascer, bem como toda velha vida espiritual dos seus cidadãos sofre um congelamento tanto pelo medo quanto pela inanição espiritual.
(…..) Contudo, mesmo numa cultura opressora, em qualquer mulher na qual a Mulher Selvagem ainda viva e viceje ou apenas cintile, haverá perguntas-chave sendo feitas, não só aquelas que nos são úteis para o insight particular de cada um, mas também aquelas que tratam da nossa cultura. “O que está por trás dessas proibições que vemos no mundo exterior”? “Que parte boa ou útil no indivíduo, na cultura, na terra, na natureza humana foi morta ou está morrendo por aqui?” Uma vez examinadas essas questões, a mulher está capacitada para agir de acordo com sua própria competência, com seu próprio talento. Tomar o mundo nas mãos e agir com ele de um modo inspirado e fortalecedor da alma é um poderoso ato do espírito selvagem.
CRIATIVIDADE
(…..) Muitas vezes a vida criativa é retardada ou interrompida porque alguma parte da psique tem de nós uma opinião muito desfavorável, e nós estamos ali rastejando aos seus pés em vez de lhe dar um golpe na cabeça e sair correndo livres. Em muitos casos, o que é necessário para corrigir s situação é que levemos mais a sério do que nunca nossas idéias, nossa arte e a nós mesmas. Em virtude de grandes quebras de continuidade nas linhas de auxílio matrilineares pelas gerações afora, esse tema de valorização da nossa vida criativa – ou seja, a valorização das idéias e obras engenhosas e belas que emanam da alma selvagem – tornou-se uma questão permanente para as mulheres.
No meu consultório fiquei olhando enquanto certas poetas jogavam no sofá folhas com seus trabalhos como se sua poesia fosse um lixo em vez de um tesouro. Vi pintoras trazerem seus quadros para uma sessão, deixando que eles batessem no batente da porta ao entrar. Vi o brilho da inveja nos olhos das mulheres quando tentam disfarçar sua raiva pelo fato de outros parecerem ser capazes de criar enquanto elas próprias, por algum motivo, não conseguem.
Ouvi todas as desculpas que uma mulher poderia conceber. Não tenho talento. Não sou importante. Não tenho instrução. Não tenho idéias. Não sei como fazer. Não sei o que fazer. Não sei quando fazer. E a mais revoltante de todas: não tenho tempo. Sempre sinto vontade de sacudi-las até que se arrependam e prometam nunca mais contar mentiras. Mas não preciso sacudi-las pois o homem sinistro dos sonhos cumprirá essa função e, se não for ele, outro agente onírico qualquer o fará.
(…..) Esse sonho com o homem sinistro é muitas vezes o suficiente para apavorar a mulher, fazendo com que ela volte a criar.
Baseado no Conto: VASALISA – fala como infundir nas mulheres o poder instintivo básico da Mulher Selvagem: a intuição
INTUIÇÃO
Vasalisa é uma história da transmissão da bênção do poder da intuição das mulheres de mãe para filha, de uma geração para outra. Esse enorme poder, o da intuição, tem a rapidez de um raio e é composto de visão interior, audição interior, percepção interior e conhecimento interior.
(…..) Embora haja um período nas nossas vidas no qual permanecemos acertadamente próxima à mãe protetora (por exemplo, quando ainda somos crianças mesmo, quando de uma recuperação de uma doença ou de um trauma espiritual ou psicológico, ou ainda quando nossa vida corre perigo e o fato de ficar quieta nos manterá a salvo), e embora mantenhamos um vasto estoque de sua ajuda para toda a vida, também chega a hora de mudar de mãe, por assim dizer.
Se ficarmos mais tempo do que o normal com a mãe protetora dentro da nossa psique, vamos nos descobrir impedindo todos os desafios de nos atingirem, o que prejudica o desenvolvimento futuro. Embora eu não esteja de modo algum querendo dizer que uma mulher deva mergulhar numa situação violenta ou torturante, quero dizer, sim, que ela deve fiar para si mesma alguma coisa na vida que ela se disponha a alcançar e, portanto, a assumir riscos para conseguir. É através desse processo que ela aguça seus poderes intuitivos.
(…..) Guillaume Apollinaire escreveu: “Nós os conduzimos até a borda e pedimos que voassem. Eles não arredaram pé. Voem, dissemos. Eles não se mexeram. Nós os empurramos para o abismo. E eles voaram”.
(…..) A obediência provoca uma descoberta chocante que deve ser registrada por todas as mulheres. Ou seja, a de que ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas. É uma tensão angustiante e que precisa ser suportada, mas a escolha é clara.
(…..) Mulheres criadas em famílias que não demonstram aceitar seus talentos costumam tomar nas mãos empreendimentos extraordinariamente grandes, repetidas vezes, sem saber por que motivo agem assim. Elas acham que precisam ter três doutorados, que precisam ficar penduradas do Monte Everest de cabeça para baixo, ou que devem realizar todo tipo de empreitada perigosa, demorada e dispendiosa para tentar provar às suas famílias que têm valor.
(…..) Já ouvi mulheres que disseram estas palavras, se não centenas, então milhares de vezes: “Eu sabia que devia ter seguido minha intuição. Pressenti que devia ou não devia ter feito isso ou aquilo, mas não lhe dei ouvidos” Nutrimos o profundo intuitivo ao prestar atenção a ele e ao agir de acordo com sua orientação. Ele é um personagem autônomo, um ser mágico, mais ou menos do tamanho de uma boneca que habita a terra psíquica da mulher interior. Nesse sentido, ele é como os músculos do corpo. Se um músculo não for usado, ele acaba definhando. A intuição é exatamente igual: sem alimento, sem atividade, ela atrofia. (…..) o “excesso de normalidade” vai nos contaminando até que tenhamos uma vida rotineira e sem vida, sem que fosse isso o que realmente pretendêssemos.
(…..) quando a pessoa dispõe dessa capacidade de ver e pressentir, é preciso fazer algo a respeito do que se viu. Possuir uma boa intuição e um poder considerável gera trabalho. Gera trabalho, a princípio, pela observação e compreensão das forças e desequilíbrios negativos tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora. Também provoca o esforço no sentido de reunir a disposição necessária para fazer algo a respeito do que se vê, seja para o bem, ou pelo equilíbrio, seja para permitir que alguma coisa morra.
(…..) É mais fácil jogar fora a luz e ir dormir. É verdade que é bem difícil segurar a luz à nossa frente em algumas ocasiões. Pois, com ela, vemos nitidamente todos os aspectos de nós mesmas e dos outros, tanto os deformados quanto os divinos, além de todas as condições intermediárias. Mesmo assim, com essa luz, chegam ao nível da consciência os milagres da profunda beleza que existe no mundo e nos seres humanos. Com essa luz penetrante, pode-se ver do outro lado da má ação um coração generoso; pode-se vislumbrar um espírito delicado esmagado sob o ódio; pode-se entender muito em vez de apenas sentir perplexidade. Esa luz pode discriminar camadas distintas da personalidade, das intenções e das motivações nos outros. Ela pode determinar o consciente e o inconsciente em nós mesmas e nos outros. É a varinha de condão do conhecimento. É o espelho no qual se pressente tudo. É a profunda natureza selvagem.
(…..) O inconsciente, ao seu modo brilhante, oferece a quem sonha uma idéia sobre um novo estilo de vida que não se restringe ao sorriso frontal e fácil da mulher “boazinha demais”. Encarar o poder selvagem em nós mesmas é ganhar acesso aos inúmeros rostos do feminino oculto. Ele nos pertence de modo inato e podemos optar por incorporar os que nos forem mais convenientes a qualquer momento.
(…..) A mulher sábia mantém seu ambiente psíquico organizado. Ela consegue isso mantendo a cabeça limpa, mantendo um local limpo para seu trabalho e se dedicando a completar suas idéias e projetos. Para muitas mulheres, essa tarefa exige que elas separem todos os dias algum tempo para a contemplação, que abram um espaço para habitar que seja nitidamente seu, com papel, canetas, tintas, ferramentas, conversas, tempo liberdades que se destinam apenas a esse trabalho.
FOGO
(…..) acende-se o fogo – a mulher precisa estar disposta a arder, arder de paixão, arder com as palavras, com as idéias, com o desejo por não importa o quê que ela realmente aprecie. É de fato essa paixão que provoca o cozimento, e as idéias significativas da mulher são o alimento que é preparado. (…..) Seria melhor para a maioria de nós se nos tornássemos mais competentes em vigiar o fogo que está por baixo do nosso trabalho, se observássemos com mais cuidado o processo de cozimento para a nutrição do Self selvagem. Infelizmente, muitas vezes votamos as costas à panela, ao fogão. Esquecemo-nos de vigiar, esquecemo-nos de acrescentar lenha, esquecemo-nos de mexer. Pensamos erroneamente que o fogo e o ato de cozinhar são parecidos com algumas daquelas resistentes plantas domésticas que sobrevivem sem água oito meses até que um dia não aguentam mais. Não é bem assim. O fogo exige atenção porque é fácil deixar que ele se apague.
(…..) Portanto, é o cozimento de novas coisas, novos rumos, da dedicação à nossa arte e ao nosso trabalho que alimenta a alma selvagem permanentemente.
JARDIM
(…..) Às vezes, com o objetivo de aproximar uma mulher da natureza da vida-morte-vida, eu lhe peço que cuide de um jardim. Seja ele psíquico, seja ele de lama, estrume e verdura, bem como de todas as coisas que cercam, ajudam e atacam. Que ele represente a psique selvagem. O jardim é um vínculo concreto com a vida e a morte. Seria mesmo possível dizer que existe uma religião dos jardins, pois eles nos ensinam profundas lições espirituais e psicológicas. Qualquer coisa que possa acontecer a um jardim pode acontecer à alma e à psique – excesso de água, falta de água, pragas, calor, tempestades, enchentes, invasões, milagres, ressecamento, reverdecimento, bênçãos, cura.
Durante a existência do jardim, a mulher escreve um diário, registrando os sinais de doação de vida e de retirada de vida. Cada registro ajuda a formar uma sopa psíquica. No jardim, adquirimos prática para deixar que pensamentos, idéias, preferências, desejos e até mesmo amores vivam e morram. Plantamos, arrancamos, enterramos. Secamos sementes, fazemos a semeadura, protegemos as plantinhas.
O jardim é uma prática de meditação, a de dizer a hora de alguma coisa morrer. No jardim, podemos ver chegar a hora de desfrutar e a hora da regressão. No jardim, estamos nos movendo de acordo com a inspiração e a expiração da grande natureza selvagem, não contra ela.
Através dessa meditação, reconhecemos que o ciclo da vida-morte-vida é natural. Tanto o lado da mulher selvagem que dá vida quanto aquele que distribui a morte estão esperando um contato amigo, esperando ser amados para sempre. Nesse processo, nós nos tornamos como a natureza selvagem cíclica. Temos a capacidade de infundir energia e reforçar a vida, sem atrapalhar o que vai morrer.
COMPANHEIROS e AMIGOS
A mulher deve escolher seus amigos e companheiros com prudência, pois tanto uns quanto os outros podem se tornar parecidos com a “madrasta má e suas filhas perversas”. No caso dos companheiros, costumamos investi-los com o poder de um grande mago – de um mágico fantástico. É fácil que isso aconteça, pois, se realmente conquistamos a intimidade, é como se estivéssemos abrindo um ateliê de cristal, um lugar mágico, ou pelo menos é o que nos parece. Um companheiro pode gerar e/ou destruir até mesmo nossos vínculos mais duradouros com nossos próprios ciclos e idéias. O companheiro destrutivo deve ser evitado. Um tipo melhor de companheiro é o que é finamente elaborado de uma grande força psíquica e carne macia. Para a Mulher Selvagem, também ajuda se o companheiro for um pouco ligado ao psíquico, uma pessoa que possa “enxergar no fundo” do seu coração.
Quando a Mulher Selvagem tem uma idéia, o amigo ou companheiro jamais dirá “Bem, não sei….me parece mesmo bobo (pretensioso, inexequível, dispendioso, etc)”. Um amigo de verdade nunca diria essas palavras. Eles poderiam se expressar de outro modo….”acho que não entendi. Diga-me como você visualiza a idéia. Diga-me como vai funcionar”.
ESCOLHAS – fome de quê?
A forma de manter o nosso vínculo com o lado selvagem consiste em nos perguntarmos exatamente o que desejamos. Essa pergunta é a que separa a semente do estrume. Uma das discriminações mais importantes que podemos fazer nesse sentido é a da diferença entre o que acena para nós de fora e o que chama de dentro da nossa alma.
Funciona da seguinte maneira. Imaginemos um bufê com creme chantilly, salmão, rosquinhas, rosbife, salada de frutas, panquecas com molho, arroz, curry, yogurte e muitos, muitos outros quitutes colocados em mesa após mesa. Imaginemos que examinamos tudo e vemos algumas coisas que nos agradam. Podemos comentar com nossos botões, “Ah! Eu realmente gostaria de comer um pouco daquilo, e disso aqui, e um pouco mais daquele outro prato”.
Alguns homens e mulheres tomam todas as decisões da vida dessa forma. Existe ao nosso redor um universo que acena constantemente, que se insinua nas nossas vidas, despertando e criando o apetite onde antes havia pouco ou nenhum. Nesse tipo de escolha, optamos por algo só porque aconteceu de ele estar debaixo do nosso nariz naquele exato momento. Não é necessariamente o que queremos, mas, é interessante; e, quanto mais examinamos, mais irresistível ele nos parece.
Quando estamos ligados ao self instintivo, à alma do feminino que é natural e selvagem, em vez de examinar o que por acaso esteja em exibição, dizemos a nós mesmas: “Estou com fome de quê?” Sem olhar para nada no mundo externo, nós nos voltamos para dentro e perguntamos: “Do quê sinto falta? O que desejo agora?” Perguntas alternativas seriam: “Anseio por ter o quê? Estou morrendo de vontade do quê?” E a resposta costuma vir rápido. “Ah, acho que quero……na verdade o que seria muito gostoso, um pouco disso e daquilo…..ah, é, é isso o que eu quero”.
Isso está no bufê? Talvez sim, talvez não. Na maioria dos casos, provavelmente não. Teremos de ir à sua procura por algum tempo, à vezes por muito tempo. No final, porém, iremos encontrar o que procuramos e ficaremos felizes por termos feito sondagens acerca dos nossos anseios mais profundos.
(…..) Em nenhuma outra atividade isso fica mais nítido do que na escolha de parceiros e companheiros. Um companheiro não pode ser escolhido como num bufê. O companheiro deve ser escolhido pelo profundo anseio da alma. Escolher só porque algo apetitoso está à sua frente não irá satisfazer nunca a fome do Self da alma. É para isso que serve a intuição. Ela é a mensageira da alma.
Para estender a imagem ainda mais, se lhe for apresentada a oportunidade de comprar uma bicicleta, ou de fazer uma viagem ao Egito para conhecer as pirâmides, você deve colocar a oportunidade de lado por um instante, mergulhar em si mesma e perguntar: “Estou com fome de quê? Do que estou sentindo falta? Talvez esteja querendo uma moto em vez de uma bicicleta. Talvez eu esteja desejando ir visitar minha avó, de idade avançada”. As decisões não precisam ser tão importantes. Às vezes a questão a ser avaliada é a escolha entre dar um passeio e escrever um poema. Seja a questão séria, seja ela banal, a idéia é consultar o self instintivo.
(…..) Outra maneira de reforçar o vínculo com a intuição consiste em não permitir que ninguém reprima nossas energias de vida….ou seja, nossas opiniões, pensamentos, idéias, valores, conceitos morais, nossos ideais. Neste mundo existem muito poucos exemplos de certo/errado ou de bom/mau. Existe, porém, o útil e o inútil. Também existem coisas que às vezes são destrutivas, bem como outras que são construtivas. No entanto, como todos sabem, o jardim deve ser revolvido no outono a fim de que se prepare para a primavera. Ele não tem como estar florido o ano inteiro. Devemos, por isso, permitir que nossos ciclos inatos, não uma outra pessoa externa a nós mesmas, determinem as curvas de ascensão e de mergulho na nossa vida.
Baseado na História: Um hino para o Homem Selvagem: Manawee
A NATUREZA DUAL das MULHERES
O esforço de compreender a natureza dual das mulheres às vezes faz com que os homens, e até mesmo as próprias mulheres, fechem os olhos e bradem aos céus em busca de ajuda. O paradoxo da natureza gêmea das mulheres reside no fato de que, quando um lado está mais frio sentimentalmente, o outro lado está mais quente. Quando um lado é menos apressado e mais rico em termos relacionais, o outro pode ser até certo ponto gélido. Muitas vezes um lado é mais feliz e maleável, enquanto o outro sente um anseio por “não sei bem o quê”. Um lado pode ser cheio de alegria, enquanto o outro é lamentoso e melancólico. Essas “duas-mulheres-que-são uma” são elementos separados porém associados, que se combinam em milhares de formas.
O PODER DO NOME
Dar o nome a uma força, uma criatura, uma pessoa ou a um objeto tem algumas conotações. Nas culturas em que os nomes são escolhidos com cuidado pelo seu significado mágico ou auspicioso, saber o verdadeiro nome de uma pessoa representa conhecer a trajetória da vida e os atributos da alma daquela pessoa.
(…..) Embora haja alguns contos nos quais o protagonista procura pelo nome de uma força malévola a fim de exercer poder sobre ela, é ainda mais comum que a procura pelo nome tenha como objetivo invocar aquela força ou aquela pessoa, chamá-la para que se aproxime e entrar num relacionamento com essa pessoa. Este último é o caso na história de Manawee.
A NATUREZA TENAZ DO CACHORRO
O cãozinho da história demonstra exatamente como funciona a tenacidade psíquica. Os cães são os mágicos do universo. Com sua simples presença, eles transformam o mau humor em sorrisos, as pessoas tristes em pessoas menos tristes. Eles geram relacionamentos. (…..) O feminino místico compreende e aceita prontamente a natureza instintiva do cachorro. Os cães representam, entre outras coisas, aquele (ou aquela) que ama do fundo do coração com espontaneidade e perseverança, que perdoa sem esforço, que consegue correr muito e lutar, se necessário, até a morte.
(…..) Uma vez, num museu de ciências em San Francisco, entrei num recinto cheio de microfones e alto-falantes que simulavam a capacidade de audição do cachorro. Quando uma palmeira balançava ao vento, parecia o dia do Armagedon. Quando se ouviam passadas chegando ao longe, parecia que um milhão de saquinhos de flocos de milho estavam sendo esmagados bem no meu ouvido. O mundo do cachorro é cheio de sons cataclísmicos e constantes….sons que nós, como seres humanos, absolutamente não registramos. Mas o cachorrinho registra.
O cão ouve, portanto, fora da faixa de audição “humana”. Esse aspecto mediúnico da psique instintiva capta pela intuição a atividade profunda, a música profunda e os profundos mistérios da psique feminina. É essa natureza que tem a capacidade de compreender a natureza selvagem nas mulheres.
A SEDUÇÃO FURTIVA DOS APETITES
Não é por acaso que homens e mulheres se esforçam para descobrir o lado mais profundo da sua natureza e, no entanto, têm sua atenção desviada por inúmeras razões, em sua maioria prazeres de diversos tipos. Alguns tornam-se dependentes dessas preferências e ficam para sempre enredados nelas, sem conseguir jamais continuar seu trabalho. (…..) Jung observou que é preciso impor algum controle aos apetites humanos, senão, como podemos ver, iremos parar a cada “osso” que apareça na estrada, a cada “torta” esfriando numa tora (como ocorreu com o cão).
(…..)Como se pode ver, o osso na estrada está à espera de todas nós. Ele tem aquele cheiro forte e apetitoso que um cachorro dificilmente ignoraria. Na pior das hipóteses, é provável que ele seja uma dependência preferida, alguma que já nos custou muito e que continua custando. No entanto, mesmo que já tenhamos fracassado repetidas vezes, precisamos tentar de novo, até que consigamos passar por ela e prosseguir com nosso trabalho principal.
Começamos a compreender que esse processo de nos mantermos conscientes, e em especial de não ceder a apetites perturbadores enquanto tentamos realizar a conexão psíquica, é longo e que é difícil manter a fidelidade a ele. No conto vemos o astuto cãozinho dando o máximo de si. Mesmo assim, é longo o caminho desde o inconsciente profundo dos arquétipos até a mente consciente. É demorado o mergulho até os nomes lá no fundo, e demorada a volta até a superfície. Manter o conhecimento no consciente é difícil quando há armadilhas ao longo do caminho.
A MULHER INTERIOR
Às vezes as mulheres ficam cansadas e irritadas à espera de que seus parceiros as compreendam. “Por que eles não conseguem saber o que eu penso, o que eu quero?” Elas ficam exaustas de fazer essa pergunta. No entanto, existe uma solução para esse dilema, uma solução prática e eficaz.
Se a mulher quiser que seu parceiro tenha esse tipo de receptividade, ela lhe revelará o segredo da dualidade da mulher. Ela lhe falará sobre a mulher interior, aquela que, somada a ela mesma, formará duas. Isso ela consegue ao ensinar seu parceiro a fazer duas perguntas de uma simplicidade enganosa que farão com que ela se sinta vista, ouvida e conhecida.
A primeira pergunta é a seguinte: “O que você quer?” Quase todo mundo faz alguma versão dessa pergunta, mas de forma automática. Existe, porém, uma pergunta ainda mais essencial. “O que deseja o seu self mais profundo?”.
Quando se ignora a natureza dual da mulher e se julga a mulher pelo que ela aparenta ser, pode-se vir a ter uma grande surpresa, pois, quando a natureza primitiva da mulher emerge das profundezas e começa a se afirmar, é frequente que ela tenha interesses, sentimentos e idéias muito diferentes dos que manifestava antes.
Para tecer um relacionamento seguro, a mulher também fará as mesmas perguntas ao parceiro. Como mulheres, aprendemos a reunir as forças dos dois lados, da nossa natureza e da dos outros também. A partir da informação que recebemos reciprocamente dos dois lados, podemos determinar com clareza o que é mais valorizado e como reagir de acordo com isso.
Quando a mulher consulta sua própria natureza dual, ela está cumprindo o processo de olhar, examinar e sondar o material que está para além do consciente, sendo, portanto, muitas vezes surpreendente no seu conteúdo e no seu tratamento, e quase sempre de imenso valor.
Para amar uma mulher, o parceiro deve também amar sua natureza primitiva. Se a mulher aceitar um companheiro que não possa amar ou que não ame esse seu outro lado, ela sem dúvida acabará arrasada sob algum aspecto e deixada a vaguear cambaleante, em desmazelo.
Portanto, os homens, tanto quanto as mulheres, devem identificar suas naturezas duais. O amante mais querido, o pai mais valorizado, o amigo ou “homem selvagem” mais valioso é aquele que deseja aprender. Quem não se delicia com o aprendizado, quem não é atraído por novas idéias ou experiências, não conseguirá passar do marco de estrada junto ao qual está descansando agora. Se existe uma força que alimenta a raiz da dor, ela é a recusa a aprender além do momento presente.
Trecho baseado no Conto: A Mulher-esqueleto: encarando a natureza de vida-morte-vida do amor
HISTÓRIA DE CAÇA A RESPEITO DO AMOR
Os lobos são bons nos relacionamentos. Qualquer um que os tenha observado sabe como são profundos seus vínculos. É freqüente que os parceiros sejam para toda a vida. Muito embora entrem em conflito, muito embora exista discórdia, os vínculos entre eles permitem que ultrapassem invernos rigorosos, primaveras abundantes, longas caminhadas, novas ninhadas, antigos predadores, danças tribais e cantos em coro. As necessidades relacionadas dos seres humanos não diferem em nada.
Embora a vida instintiva dos lobos inclua a lealdade e vínculos permanentes de confiança e devoção, os seres humanos às vezes enfrentam dificuldades com essas questões.
(…..) Diferentemente dos seres humanos, os lobos não consideram que os altos e baixos da vida, quer de energia, de poder, de alimento, quer de oportunidade, sejam espantosos ou punitivos. Os picos e os vales simplesmente existem, e os lobos passeiam por eles com a máxima eficácia e facilidade possível. A natureza instintiva tem a capacidade miraculosa de sobreviver a cada dádiva positiva, a cada consequência negativa, e ainda manter o relacionamento com o self e com o outro.
(…..) Nas histórias do norte, o amor não é um encontro romântico entre dois amantes. As histórias das regiões próximas ao polo descrevem o amor como a união entre dois seres cuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte.
Para compreender esta história, temos de entender que lá, num dos ambientes mais rigorosos e numa das culturas de caça mais notáveis do planeta, o amor não significa um flerte ou uma procura de mero prazer para o ego, mas um vínculo visível composto da força psíquica da resistência, uma união que prevalece na fartura ou na austeridade, que passa pelos dias e noites mais simples e mais complicados. A união de dois seres é considerada angakok, mágica em si mesma, como um relacionamento através do qual “os poderes que existem” se tornam conhecidos aos dois indivíduos.
Existem, porém, exigências para esse tipo de união. A fim de criar esse amor duradouro, convida-se mais um parceiro para a união. Esse terceiro é a Mulher-esqueleto. Ela é também chamada de A Morte e, nesse sentido, ela é a natureza da vida-morte-vida num dos seus muitos disfarces. Nessa sua apresentação, a Morte não é um mal, mas uma divindade.
Num relacionamento, ela desempenha o papel do oráculo que sabe quando chegou a hora de um ciclo começar e terminar.
(…..)Essa história é uma imagem adequada para o problema do amor moderno, o medo da natureza da vida-morte-vida, em especial do aspecto morte. Em grande parte da cultura ocidental, o personagem original da natureza da morte foi encoberto por vários dogmas e doutrinas até o ponto em que se separou de vez da sua outra metade, a vida. Fomos ensinados, equivocadamente, a aceitar a forma mutilada de um dos aspectos mais básicos e profundos da natureza selvagem. Aprendemos que a morte é sempre acompanhada de mais morte. Isso simplesmente não é verdade. A morte está sempre no processo de incubar uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos.
Em vez de considerar os arquétipos da morte e da vida como opostos, devemos encará-los juntos como o lado esquerdo e o direito de um único pensamento. É fato que dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto nas delicadas camadas do ser criado quando duas pessoas se amam, existe um coração e um alento. Enquanto um lado do coração se esvazia, o outro se enche. Quando uma respiração termina, outra se inicia.
Se acreditarmos que a força da vida-morte-vida não tem mais nenhum papel depois da morte, não é de se estranhar que alguns seres humanos tenham pavor do compromisso. Eles têm um medo horrível de passar por um final que seja. Não conseguem suportar a idéia de passar da varanda para os aposentos do interior da casa. Têm medo porque pressentem que lá na copa da casa do amor está sentada a Morte, batendo com o dedo do pé no chão, dobrando e redobrando suas luvas. Diante dela está uma lista de tarefas: de um lado, os que estão vivendo; do outro, os que estão morrendo. Ela pretende terminar seu trabalho. Está determinada a manter um equilíbrio.
O arquétipo da força da vida-morte-vida é extremamente mal compreendido em muitas culturas modernas. Algumas não entendem mais que a Morte é carinhosa e que a vida se renovará com seu auxílio. Em muitos folclores, ela recebe uma atenção sensacionalista: diz-se que carrega uma grande foice para “ceifar” a vida dos que de nada suspeitam, que beija suas vítimas e deixa cadáveres espalhados por onde passa, ou que ela os afoga e fica uivando noite adentro.
Em outras culturas, porém, como na do leste da Índia e na cultura maia, que têm maior cuidado com o ensino sobre a roda da vida e da morte, a Morte abraça os que já estão morrendo, abrandando sua dor e proporcionando alívio. Diz-se que ela vira o bebê no útero para a posição de cabeça para baixo a fim de que ele possa nascer. Diz-se que ela guia as mãos da parteira, que abre o caminho para o leite nos seios maternos e que ainda consola quem quer que esteja chorando sozinho. Em vez de criticá-la, quem a conhece em seu ciclo completo respeita sua generosidade e suas lições.
Grande parte do nosso conhecimento da natureza da vida-morte-vida é contaminada pelo nosso medo da morte. Portanto, nossa capacidade para acompanhar os ciclos da natureza da vida-morte-vida é muito frágil. Essas forças não “fazem” nada a nós. Elas não são ladrões que nos roubam aquilo que prezamos. Essa natureza não é um motorista irresponsável que destrói o que valorizamos e foge em alta velocidade.
Não, não, as forças da vida-morte-vida fazem parte da nossa própria natureza, como uma autoridade interna que sabe os passos, que conhece a dança da vida e da morte. Ela é composta pelas partes de nós mesmas que sabem quando algo pode e deve nascer e quando ele deve morrer. Trata-se de um mestre profundo, se ao menos aprendermos seu ritmo.
(…..) Uma parte de cada mulher e de cada homem resiste ao reconhecimento de que a morte deve participar de todos os relacionamentos de amor. Nós fingimos que podemos amar sem que morram nossas ilusões acerca do amor, fingimos que podemos prosseguir sem que morram nossas expectativas superficiais, fingimos que podemos ir em frente e que nossas emoções preferidas nunca morrerão. No amor, porém, em termos psíquicos, tudo é dissecado, tudo. O ego não quer que isso ocorra. No entanto, é assim que deve ser, e a pessoa provida de uma natureza profunda e selvagem é inegavelmente atraída pela tarefa.
(…..) Como a mulher é uma guardiã dos ciclos, os ciclos da vida-morte-vida são o alvo principal da sua preocupação. Já que pouca vida nova pode surgir sem que ocorra um declínio na que havia antes, os amantes que insistirem em tentar manter tudo num apogeu psíquico cintilante passarão seus dias num relacionamento cada vez mais mumificado. O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto mais positivo é o que faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre.
O SONO DA CONFIANÇA
(….) A inocência é diferente da ingenuidade. No interior existe um antigo ditado:
“A ignorância é não saber nada e ser atraído pelo bem. A inocência é saber tudo e ainda assim ser atraído pelo bem”.
(…..) Embora a imagem do sono possa indicar o inconsciente, nesse caso ele simboliza a criação e a renovação. O sono é o símbolo do renascimento. Nos mitos da criação, as almas adormecem enquanto se realiza uma transformação de uma duração determinada, pois no sono nós nos recriamos, nos renovamos.
….sono que deslinda a meada enredada das preocupações [o sono é] o banho reparador do trabalho doloroso, [o] bálsamo das almas feridas, o segundo prato na mesa da grande Natureza, o principal alimento do festim da vida. – Shaskespeare, Macbeth, II, ii, 36
Se tivéssemos a possibilidade de ver a pessoa viva mais calejada, a mais cruel e impiedosa, durante o sono ou no instante em que acorda, veríamos essa pessoa por um momento como o espírito não-conspurcado, a pura inocência. No sono, somos devolvidos mais uma vez a um estado de doçura. No sono, nos refazemos. Somos recriados de dentro para fora, novos em folha como inocentes.
Esse estado de sábia inocência é alcançado quando descartamos o cinismo e as atitudes defensivas e voltamos a mergulhar no estado de deslumbramento que vemos na maioria dos seres humanos que são muito jovens e em muitos que são bem velhos. É a prática de se olhar com os olhos de um espírito sábio e amoroso, em vez de olhar com os do cão açoitado, da criatura acuada, da boca acima do estômago, do ser humano ferido e irritado. A inocência é um estado que se renova quando dormimos. Infelizmente, são muitos os que a deixam de lado junto à colcha ao acordar. Seria melhor se sempre trouxéssemos conosco uma inocência alerta e a apertássemos junto ao corpo para sentir seu calor.
Embora a princípio a volta a esse estado possa exigir que eliminemos anos de pontos de vista desgastados, décadas de meticulosa construção de amuradas desumanas, uma vez que voltemos a ele, nunca mais precisaremos indagar por ele, escavar à sua procura. Voltar a uma inocência alerta não exige tanto esforço, como o de mover um monte de tijolos de um lugar para o outro, mas, sim, que fiquemos parados o tempo suficiente para que o espírito nos encontre. Diz-se que tudo que procuramos também está à nossa procura; que se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará.
(…..) Quando uma vida é excessivamente controlada, cada vez há menos vida a controlar.
(…..) Todos nós já cometemos o erro de pensar que uma outra pessoa podia ser nossa cura, nossa emoção, nossa realização. Leva muito tempo para se descobrir que isso não existe, especialmente porque pomos o ferimento na parte externa em vez de ministrar-lhe a cura dentro de nós.
LÁGRIMA
Talvez não exista nada que uma mulher deseje mais de um homem do que a atitude de ele desmanchar suas projeções e encarar seu próprio ferimento. Quando o homem enfrenta seu ferimento, a lágrima surge naturalmente, e suas lealdades internas e externas se tornam mais fortes e definidas. Ele se transforma no seu próprio curandeiro. Não se sentirá mais solitário à procura do Self profundo. Ele não mais procura a mulher para ser seu analgésico.
(…..) Como nos contos de fadas, as lágrimas atraem as coisas para nós, elas consertam tudo, elas fornecem a peça ou o pedaço que faltava. (…..) Nas lágrimas há um poder de atração e, dentro da própria lágrima, imagens poderosas que nos orientam. As lágrimas não só representam o sentimento, mas são também lentes através das quais adquirimos uma visão alternativa.
AMOR
Às vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos. Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços – todos no mesmo relacionamento.
A energia, o sentimento, a intimidade, a solidão, o desejo, o tédio, todos aumentam e diminuem em ciclos relativamente comprimidos. Nosso desejo de proximidade, e de separação, alterna ciclos de crescimento e de declínio. A natureza da vida-morte-vida não só nos ensina a acompanhar esses ciclos na dança, mas nos mostra que a solução para o mal-estar está sempre no contrário. Portanto, novas atividades são a cura para o tédio; a intimidade é a cura para a solidão; a solidão é a cura para a sensação de falta de espaço.
Sem o conhecimento dessa dança, a pessoa tem a tendência, durante vários períodos de águas paradas, a traduzir a necessidade de atividade nova e pessoal em gastos excessivos, em exposição a riscos, em escolhas irresponsáveis, na procura de um novo parceiro. Esse é o jeito do tolo ou do pateta. É a solução dos que não sabem.
MÃE FORTE, PROLE FORTE
Os relacionamentos entre mulheres, sejam elas da mesma família de sangue ou almas gêmeas, seja o relacionamento entre analista e analisando, entre mestre e aprendiz, ou entre espíritos afins, são todos relacionamentos de afinidade da maior importância.
(…..) Mas o que dizer da mulher que realmente passou por uma experiência com uma mãe destrutiva na própria infância? É claro que esse período não pode ser apagado, mas ele pode ser atenuado. Ele pode não ser suavizado, mas pode agora ser reconstruído com firmeza e da forma correta. Não é a reconstrução da mãe interna que é tão assustadora para tantas mulheres, mas, sim, o medo de que algo de essencial tenha morrido naquele período, algo que nunca mais possa ser ressuscitado, algo que não recebeu alimento e proteção, pois em termos psíquicos era a nossa própria mãe que morreu. Para vocês, eu digo, tranquilizem-se, vocês não estão mortas, vocês não sofreram danos letais.
Como na natureza, a alma e o espírito têm recursos espantosos. À semelhança dos lobos e de outras criaturas, a alma e o espírito conseguem sobreviver com muito pouco e, às vezes, passam muito tempo sem nenhum alimento. Para mim, esse é o milagre dos milagres.
Uma vez eu estava transplantando uma cerca-viva de lilases. Um enorme arbusto havia morrido de causa desconhecida, mas, os restantes estavam cobertos de roxo na primavera. O pé morto rachou e se esfarelou como pé-de-moleque quando o desenterrei. Descobri que suas raízes estavam ligadas a todos os outros lilases vivos na cerca. O que me espantou ainda mais foi o fato de a planta morta ser a “mãe”. Eram dela as raízes mais grossas e mais velhas. Todos os seus filhotões estavam muito bem embora ela própria estivesse “botas arriba” , como que de “canelas esticadas”. Os lilases se reproduzem por meio do que se chama de sistema de rebentões, de modo que cada pé provém de um rebento da raiz da planta mãe. Com esse sistema, mesmo que a mãe fraqueje, o rebento pode sobreviver. É esse o modelo psíquico e a esperança para aquelas que tiveram pouco ou nenhum cuidado materno, bem como para as que sofreram cuidados torturantes. Muito embora a mãe de certo modo esteja acabada, muito embora ela não tenha mais nada a oferecer, os rebentos irão se desenvolver, crescer independentes, e ainda vicejar.
SENTIMENTOS CONGELADOS, CRIATIVIDADE CONGELADA
As mulheres lidam com o isolamento de outras formas. Como o patinho feio que fica preso no gelo do lago, elas se congelam. O congelamento é a pior atitude que uma pessoa pode tomar. A frieza é o beijo da morte para a criatividade, para os relacionamentos, para a própria vida. Algumas mulheres agem como se conseguir ser fria fosse um grande feito. Não é. É um ato de ira defensiva.
Na psicologia arquetípica, estar frio representa não ter sentimentos. Há histórias da criança congelada, da criança que não conseguia sentir, dos corpos presos no gelo durante um período em que nada podia se mexer, nada podia se transformar, nada podia nascer. Um ser humano congelado significa que ele está propositadamente sem sentimentos, em especial para consigo mesmo, mas também e às vezes ainda mais para com os outros. Embora esse seja um mecanismo de autoproteção, ele prejudica a psique-alma, porque a alma não reage ao gelo, mas ao calor. Uma atitude gélida apagará o fogo criativo da mulher. Ela inibirá a função criativa.
É esse um problema grave, mas a história nos dá uma idéia. O gelo precisa ser quebrado, e a alma, retirada do congelamento.
Quando os escritores, por exemplo, se sentem secos, áridos, sem vida, eles sabem que o jeito para voltar à fertilidade reside em escrever. No entanto, se eles estiverem presos no gelo, não conseguirão escrever. Há pintores que estão ansiosos por pintar, mas dizem a si mesmos, “larga disso. Seus quadros são estranhos e feios”. Existem muitos artistas que ainda não firmaram sua posição e outros que são veteranos de guerra no desenvolvimento da sua vida criativa, e mesmo assim cada vez que eles pegam na pena, no pincel, nas fitas, no roteiro, eles ouvem, “você só causa problemas. Seu trabalho é marginal ou totalmente inaceitável porque você mesmo é marginal e inaceitável”.
Não é o bom comportamento, mas a atividade lúdica que é a artéria central, o cerne, o bulbo cerebral da vida criativa. O impulso para o lúdico e instintivo. Sem o lúdico, não há vida criativa. Com o comportamento restrito ao “bom”, não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa. Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico; a suspeitar do que for novo e incomum; a evitar o que for inovador, vital, veemente; a despersonalizar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.
Portanto, qual é a solução? Aja como o patinho feio. Siga em frente, supere tudo com a luta. Apanhe logo a caneta, comece a escrever e pare de resmungar. Escreva. Pegue o pincel e, para variar, seja má consigo mesma: pinte. Bailarina, vista sua malha, amarre fitas no cabelo, na cintura ou nos tornozelos e diga ao corpo que se mexa. Dance. Atriz, dramaturga, poeta, musicista ou qualquer outra. Em geral, pare de falar. Não pronuncie mais uma palavra sequer, a não ser que você seja cantora. Tranque-se num quarto com teto ou numa clareira sob os céus. Exerça sua arte. Sabe-se que o que está em movimento não se congela. Por isso, mexa-se. Vá em frente.
O ZIGOTO ERRADO
(…..) Alguma vez você já se perguntou como conseguiu aparecer numa família tão estranha quanto a sua? Se você passou a vida se sentindo estrangeiro, como uma pessoa ligeiramente estranha ou diferente, e você é um ser solitário, que vive às margens da corrente dominante, você sem dúvida sofreu. No entanto, chega também a hora de remar para longe disso tudo, de experimentar um panorama diferente, de migrar de volta à terra da sua própria gente.
(…..) Sua família a considera uma alienígena. Você tem penas, eles tem escamas. Sua idéia de diversão é a floresta, os ermos, a vida interior, a majestade da natureza. A idéia deles de diversão é dobrar toalhas direitinho. Se isso acontece com você na sua família, você está sendo vítima da síndrome do zigoto errado.
(…..) Nunca ouviu falar nisso? Bem, foi assim, a fada dos zigotos estava sobrevoando sua cidade natal numa noite, e todos os zigotinhos na sua cesta pulavam e saltavam de alegria.
Na verdade, você estava destinada a pais que a teriam compreendido, mas a fada dos zigotos entrou numa zona de turbulência e, epa, você caiu da cesta na casa errada. Você caiu de cabeça para baixo bem numa família que não lhe estava destinada. Sua “verdadeira” família ficava uns cinco quilômetros mais adiante.
(…..) É um sinal inequívoco dos zigotos errados na família o fato de os pais se sentirem ofendidos o tempo todo enquanto os filhos têm a impressão de que nunca vão conseguir fazer nada certo.
(…..) Apesar de as necessidades da alma da criança deverem ser equilibradas com sua necessidade de segurança e cuidados físicos, bem como com noções cuidadosamente examinadas do “comportamento civilizado”, sempre me preocupo com aquelas que são bem-comportadas demais. Elas muitas vezes tem aquela expressão de “alma fraca” nos olhos. Alguma coisa não está certa. Uma alma saudável aparece brilhante por trás da persona a maior parte dos dias, e nos outros arde como chama. Quando o dano é sério, a alma foge.
(…..) Há mais uma questão a tratar. Os zigotos errados aprendem a sobreviver. É difícil passar anos a fio na companhia de quem não pode nos ajudar a florescer. Ser capaz de dizer que sobrevivemos é um feito. Para muitas, o poder está na própria palavra. No entanto, chega uma hora no processo de formação da identidade em que a ameaça, ou o trauma, já faz parte do passado. É então que se passa ao próximo estágio da sobrevivência, à cura e ao desenvolvimento futuro.
TENTATIVA DE OCULTAR UMA VIDA SECRETA, A DIVISÃO
Segundo a psicologia analítica, a repressão de sentimentos, instintos e impulsos tanto negativos quanto positivos, forçando-os para o fundo do inconsciente, faz com que eles ocupem o reino da sombra. Embora o ego e o superego continuem tentando censurar os impulsos da sombra, a própria pressão causada por essa repressão se assemelha muito a uma bolha na lateral de um pneu. Com o tempo, à medida que o pneu gira e se aquece, a pressão por trás da bolha aumenta e provoca uma explosão, que libera todo o ar do seu interior.
A sombra age de modo semelhante. É por isso que uma pessoa extremamente sovina pode surpreender a todos contribuindo de repente com milhões de dólares para um orfanato. Ou é por isso que uma pessoa normalmente simpática é capaz de ter um ataque e agir momentaneamente como um rojão enlouquecido. Concluímos que, quando se abre um pouco a porta para o reino da sombra e se permite que vários elementos saiam, aos poucos, para que nos relacionemos com eles, que descubramos uso para eles, que negociemos com eles, podemos reduzir a chance de sermos surpreendidas por ataques e explosões inesperadas dali provenientes.
Embora os valores possam mudar de uma cultura para a outra, colocando, assim “negativos” e “positivos” diferentes no reino das sombras, impulsos típicos que são considerados negativos e, portanto, relegados às trevas são aqueles que estimulam a pessoa a roubar, a enganar, a assassinar, a agir com excesso de diversas maneiras, e assim por diante nessa mesma linha. Os aspectos negativos da sombra costumam ser estranhamente interessantes e, ainda assim, de natureza entrópica, roubando o equilíbrio e a serenidade na disposição e na vida dos indivíduos, relacionamentos e grupos maiores.
A sombra pode, porém, conter aspectos divinos, exuberantes, belos e poderosos da individualidade. Para as mulheres, especialmente, o mundo sombrio quase sempre contém modos refinados de ser que são proibidos na sua cultura ou que nela recebem pouco apoio. No fundo do poço da psique de muitas mulheres está a criadora visionária, a astuta reveladora da verdade, a vidente, a que pode falar bem de si mesma sem se censurar, que pode se encarar sem repulsa, que se esforça para aperfeiçoar seu talento. Os impulsos positivos ocultos nas sombras da nossa cultura na maioria das vezes estão relacionados à permissão para que a mulher crie uma vida própria, feita à mão.
(…..) A vida sombria ocorre quando escritoras, pintoras, bailarinas, mães, cientistas, místicas, estudantes ou artífices param de escrever, de pintar, de dançar, de cuidar dos filhos, de pesquisar, observar, aprender, praticar. Elas podem parar porque aquilo a que dedicaram tanto tempo não saiu como esperavam, não obteve o reconhecimento merecido ou por inúmeras outras razões. Quando quem cria pára pelo motivo que seja, a energia que chega naturalmente a ela é desviada para o mundo oculto, a partir do qual ela vem à tona quando e onde consegue. Como a mulher percebe que não pode se dedicar abertamente àquilo que deseja, ela começa a levar uma estranha vida dupla, simulando um comportamento à luz do dia, agindo de outro modo quando tem a oportunidade.
(…..) Pode-se dar o nome que se quiser, mas ter uma vida secreta porque a vida real não tem espaço suficiente para vicejar é prejudicial à vitalidade da mulher. (…..) Para escapar desse caminho polarizado, a mulher tem de abandonar a simulação. Esconder uma vida interior falsa nunca funciona. Ela sempre explode pela lateral do pneu, quando menos esperamos. E aí, é a desgraça para todos. É melhor que despertemos, que nos levantemos, por mais caseira que seja nossa plataforma, e vivamos com a maior intensidade possível, da melhor maneira possível, deixando de lado a ocultação de falsos substitutos. Esperemos pelo que seja realmente significativo e saudável para nós.
(…..) Eu gostaria de poder afirmar que a esta altura não existem mais todas essas armadilhas para as mulheres, ou que elas já estão tão calejadas que detectam essas armadilhas de longe. No entanto, isso não acontece. Nós ainda temos o predador na nossa cultura, e ele ainda tenta sabotar e destruir toda a conscientização e todas as tentativas de alcançar a totalidade. Há uma grande verdade no ditado de que é preciso batalhar de novo pela liberdade a cada vinte anos. Às vezes, a impressão é de que é preciso lutar por ela a cada cinco minutos.
No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que eles se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo “Ah, não! De novo!!!” Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito. Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis. É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.
TRIVIALIZAÇÃO DO ANORMAL
Existe um importante estudo que esclarece a perda do instinto de autodefesa nas mulheres. No início da década de 1960, alguns cientistas realizaram experiências com animais para tentar determinar algo a respeito do “instinto de fuga” nos seres humanos. Numa das experiências, eles fizeram uma instalação elétrica na metade direita de uma grande jaula, de modo que um cão preso nela recebesse um choque cada vez que pisasse no lado direito. O cão aprendeu rapidamente a permanecer no lado esquerdo da jaula.
Em seguida, o lado esquerdo da jaula recebeu mesmo tipo de instalação, que foi desligada no lado direito. O cão logo se reorientou, aprendendo a ficar no lado direito da jaula. Então, todo o piso da gaiola foi preparado para dar choques aleatórios, de tal modo que, onde quer que o cão estivesse parado ou deitado, ele acabaria levando um choque. Ele a princípio aparentou estar confuso e depois entrou em pânico. Finalmente, o cão desistiu e se deitou, aceitando os choques à medida que surgissem, sem tentar fugir deles ou descobrir de onde viriam.
No entanto, a experiência não estava encerrada. No próximo passo, a jaula foi aberta. Os cientistas esperavam que o cão saísse dali correndo, mas ele não fugiu. Muito embora pudesse abandonar a jaula quando bem entendesse, ele ficou ali deitado recebendo os choques aleatórios. A partir dessa experiência, os cientistas levantaram a hipótese de que, quando um animal é exposto à violência, ele apresentará a tendência a se adaptar a essa perturbação, de tal forma que, quando a violência pára ou ele tem acesso à liberdade, o instinto saudável de fugir é extremamente reduzido, e em vez de escapar o animal fica paralisado.
Em termos da natureza selvagem das mulheres, é essa trivialização da violência , assim como o que os cientistas subseqüentemente denominaram “aprendizado da impotência”, que não só influencia as mulheres a ficar com parceiros alcóolatras , patrões exploradores e grupos que se aproveitam delas e as importunam, mas também faz com que elas se sintam incapazes de se erguer para apoiar aquilo em que acreditam profundamente: sua arte, seu amor, seu estilo de vida, sua preferência política.
A trivialização do que é anormal, mesmo quando existem claros indícios de que essa atitude seja prejudicial a nós mesmas, aplica-se a todos os maus-tratos infligidos às naturezas instintiva, espiritual, criativa, emocional e física. As mulheres enfrentam essa questão sempre que são desorientadas, de modo a fazer qualquer coisa que não seja a defesa da sua vida profunda de projeções invasivas, culturais, psíquicas ou de outra natureza.
Em termos psíquicos, nós nos acostumamos aos golpes dirigidos às nossas naturezas selvagens. Nós nos adaptamos à violência perpetrada contra a natureza selvagem e sábia da psique. Tentamos ser boazinhas enquanto trivializamos o anormal. Perdemos, conseqüentemente, nosso poder de fuga. Perdemos nosso poder de lutar pelos elementos da alma e da vida que mais valorizamos.
O CIO: A RECUPERAÇÃO DE UMA SEXUALIDADE SAGRADA
Há um ser que vive no subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres. Essa criatura faz parte da nossa natureza sensorial e, como qualquer animal completo, possui seus próprios ciclos naturais e nutritivos. Esse ser é curioso, gregário, transbordante de energia em certas horas, submisso em outras. Ele é sensível a estímulos que envolvam os sentidos: a música, o movimento, o alimento, a bebida, a paz, o silêncio, a beleza, a escuridão.
É esse aspecto da mulher que tem cio. Não um cio voltado exclusivamente para a relação sexual, mas uma espécie de fogo interior cuja chama cresce e depois abaixa, em ciclos. A partir da energia liberada neste nível, a mulher age como lhe convém. O cio da mulher não é um estado de excitação sexual, mas um estado de intensa consciência sensorial que inclui sua sexualidade, sem se limitar a ela.
Muito poderia ser escrito acerca dos usos e abusos da natureza sensorial feminina e sobre como a mulher e outras pessoas atiçam o fogo à revelia dos seus ritmos naturais ou tentam extingui-lo por completo. No entanto, em vez disso, vamos focalizar um aspecto que é ardente, decididamente selvagem e que transmite um calor que nos mantém aquecidas com boas sensações. Na mulher moderna, essa manifestação sensorial recebeu pouquíssima atenção e, em muitas regiões e períodos, foi totalmente eliminada.
(…..) Sempre considerei que o kaffeeklatsch ( é uma reunião informal em que se toma café e se conversa) era um remanescente de algum antigo rito feminino de reunião, um ritual de conversa íntima, mulheres falando com suas entranhas, dizendo a verdade, rindo até parecerem bobas, revigoradas, de volta ao lar, sentindo tudo melhor.
Às vezes é difícil conseguir que os homens se afastem para que as mulheres possa ficar a sós. Só sei que antigamente as mulheres estimulavam os homens a fazer uma “excursão de pesca”. Trata-se de um ardil usado pelas mulheres desde tempos imemoriais com o objetivo de fazer com que os homens saíssem por algum tempo a fim de que elas pudessem ficar sozinhas ou só com outras mulheres. As mulheres desejam estar numa atmosfera exclusivamente feminina de quando em quando, quer a sós, quer com outras. Trata-se de um ciclo feminino natural.
A energia masculina é agradável. Ela é mais do que agradável; ela é exuberante, grandiosa. No entanto, ela às vezes lembra um banquete de chocolates. Depois, ansiamos por arroz frio e puro durante alguns dias e um caldo quente e simples para limpar a boca. Precisamos fazer isso de vem em quando.
(…..) O riso é um lado oculto da sexualidade feminina: ele é físico, essencial, arrebatado, revitalizante e, portanto, excitante. É um tipo de sexualidade que não tem objetivo, como a excitação genital. É uma sexualidade da alegria, só pelo momento, um verdadeiro amor sensual que voa solto e que vive, morre e volta a viver da sua própria energia. Ele é sagrado por ser tão medicinal. É sensual por despertar o corpo e as emoções. Ele é sexual por ser excitante e gerar ondas de prazer. Ele não é unidimensional, pois o riso é algo que compartilhamos com nosso próprio self bem como com muitos outros. É a sexualidade mais selvagem da mulher.
A RAIVA
(…..) A história nos mostra que a paciência é um bom remédio a ser aplicado à raiva nova ou antiga, da mesma forma que a dedicação à busca da cura. Embora a cura e o insight sejam diferentes para cada pessoa, a história propõe algumas idéias interessantes a respeito de como se envolver com o processo.
(…..) Toda emoção, mesmo a raiva, possui conhecimento, insight, o que alguns chamam de iluminação. Nossa raiva pode, por algum tempo, ser nossa mestra…..algo de que não devemos nos livrar tão rápido, mas sim, pelo que devemos escalar a montanha, algo a ser identificado, algo com que aprender, algo a ser tratado internamente e depois ser transformado em algo útil para o mundo, ou algo que deixamos voltar a pó. Na vida selvagem, a raiva não é um item isolado. Ela é uma substância à espera de nossos esforços transformadores. O ciclo da raiva é como qualquer outro ciclo: ela sobe, cai, morre e é liberada como energia nova. Quando nos permitimos aprender com nossa raiva, assim transformando-a, nós a dispersamos. Nossa energia volta para ser usada em outras áreas, especialmente na área da criatividade. (…..) A raiva não transformada pode se tornar um mantra constante acerca de como fomos oprimidas, feridas e torturadas.
(…..) A raiva corrói nossa confiança de que algo de bom possa ocorrer. Aconteceu algo com nossa esperança. E por trás da falta de esperança geralmente está a raiva; por trás da raiva, a dor; por trás da dor, normalmente algum tipo de tortura, às vezes recente, mas quase sempre muito remota.
(…..) A indignação, ou irritação, que sentimos naturalmente com relação a vários aspectos da vida e da cultura é exacerbada quando houver repetidas ocorrências de desrespeito, perseguição, negligência ou extrema insegurança na infância. A pessoa ferida dessa forma fica sensibilizada para futuros traumas e utiliza todas as defesas para evitá-los. Significativas perdas de poder, ou seja, a perda da certeza de que somos dignos de cuidado, respeito e atenção, geram uma tristeza extrema e juramentos irados por parte da criança de que, quando adulta, ela nunca mais se permitirá ser ferida daquela forma.
Além disso, se a mulher foi criada com expectativas positivas inferiores às de outros membros da família, com severas restrições à sua liberdade, às suas atitudes, ao seu linguajar, entre outras, é provável que sua raiva cresça diante de assuntos, tons de voz, gestos, palavras e outros gatilhos sensoriais que a façam se lembrar dos acontecimentos originais. Podemos chegar bem perto de uma reconstituição dos traumas da infância ao examinar com cuidado o que faz com que os adultos percam o controle.
(….) Embora seja fato que às vezes precisamos expressar nossa raiva antes de podermos avançar para uma tranquilidade esclarecedora, isso precisa sofrer algum tipo de contenção. Se não for assim, é como jogar um fósforo aceso na gasolina.
O ESPÍRITO DO URSO
O que nos ensina o símbolo do urso, em contraste com o da raposa, do texugo, no que diz respeito ao trato com o self enfurecido? Para os antigos, o urso simbolizava a ressurreição. O animal dorme por um longo período, no qual sua pulsação se reduz a quase nada. É frequente que o macho emprenhe a fêmea imediatamente antes da hibernação, mas, como que por milagre, o óvulo e o espermatozoide não se unem de imediato. Eles permanecem separados no caldo uterino da ursa até bem mais tarde. Perto do final da hibernação, o óvulo e o espermatozoide se unem, e tem início a divisão celular, de tal modo que os filhotes nasçam na primavera quando a mãe estiver despertando, na hora certa para cuidar dos novos filhotes e os preparar para a vida. Não só pelo fato de acordar da hibernação como se voltasse da morte, mas ainda mais pelo motivo de a ursa despertar com uma nova ninhada, esse animal é uma profunda metáfora para a vida humana, para a volta e o crescimento de algo que parecia extinto.
(…..) Na psique, o urso pode ser compreendido como a capacidade de se regular a própria vida, especialmente a vida emocional. A força do urso está na sua capacidade de se movimentar em ciclos, de estar totalmente alerta ou de e acalmar entrando num sono hibernal que renova suas energias para o ciclo seguinte. A imagem do urso ensina ser possível manter uma espécie de manômetro na nossa vida emocional, e especialmente que podemos ser ferozes e generosas ao mesmo tempo.Podemos proteger nosso território, deixar claros nossos limites, abalar os céus caso seja necessário, e ainda ser disponíveis, acessíveis, férteis, tudo ao mesmo tempo.
(….) Podemos deter todo o conhecimento do universo, e ele se reduz a um ponto: praticá-lo.
SENSIBILIDADE
(…..) Muitas mulheres são sensíveis como a areia é sensível à onda, como as árvores são sensíveis à qualidade do ar, como uma loba pode ouvir o passo de um outro animal entrando em seu território de mais de um quilômetro de distância. O magnífico dom das mulheres com essa sintonia consiste em ver, ouvir, pressentir, receber e transmitir imagens, idéias e sentimentos com a velocidade de um raio. A maioria das mulheres consegue sentir as alterações mais sutis no temperamento de uma outra pessoa, consegue ler expressões faciais e corporais – sendo essa capacidade chamada de intuição – e, muitas vezes, a partir de uma infinidade de pistas minúsculas que se reúnem para lhe dar informação, sabe o que está passando na cabeça dos outros. Para poder usar esses talentos selvagens, as mulheres mantêm-se abertas a todas as coisas. E é essa mesma abertura que deixa vulneráveis suas fronteiras, expondo-as a danos ao espírito.
RAIVA x PERDÃO
Se e quando a raiva se transforma numa represa para o pensamento e a ação criativa, ela precisa ser abrandada ou modificada. Para quem passou bastante tempo elaborando algum trauma, que ele tenha sido provocado pela crueldade, negligência, falta de respeito, falta de responsabilidade, arrogância ou ignorância de alguém, que por obra do destino, um dia chega a hora de perdoar a fim de liberar a psique para que ela volte a um estado normal de calma e Paz.
Quando a mulher enfrenta dificuldades para se livrar da raiva ou da fúria, muitas vezes é porque ela está usando a raiva para ganhar forças. Embora a princípio essa possa ter sido uma decisão sábia, com o tempo ela precisa ter cuidado, pois a raiva constante e um fogo que queima sua própria energia vital. Encontrar-se nesse estado é como voar pela vida com “o pé na tábua”; como tentar levar uma vida equilibrada com o pé no acelerador até o fundo. O ímpeto da fúria não deve ser considerado um substituto da vida cheia de paixão. Não é a vida na sua melhor forma. Trata-se de uma defesa cuja manutenção é muito cara, depois de passada a necessidade da sua proteção. Após algum tempo, ela arde incessantemente, polui nossas idéias com sua fumaça negra e prejudica outras formas de visão e de percepção.
(…..) Às veze as pessoas se confundem e pensam que estar presa a uma raiva ultrapassada significa queixas e enfurecimentos, acessos de raiva e de atirar coisas. Na maioria dos casos, não é assim que funciona. Estar presa significa estar cansada o tempo todo, ter uma grossa camada de cinismo, destruir a esperança, frustrar o novo, o promissor. Significa ter medo de perder antes de abrir a boca. Significa chegar ao ponto e ebulição por dentro, deixando transparecer ou não. Significa amargos silêncios defensivos. Significa sentir-se desamparada. Existe, porém, uma saída, e é através do perdão.
“Ora, através do perdão?” você dirá num tom de repúdio. Qualquer coisa menos isso? No fundo, você sabe que um dia tudo se resumirá a isso. Pode ser que isso só chegue no seu leito de morte, mas chegará. Pense no seguinte: muitas pessoas têm dificuldades com o perdão porque lhes ensinaram que ele é um ato único a ser concluído de uma vez. Isso não é correto. O perdão tem muitas camadas, muitas estações. Na nossa cultura existe a idéia de que o perdão é absoluto. Tudo ou nada. Também nos ensinam que perdoar significa fechar os olhos, agir como se algo não tivesse ocorrido. Isso também não é verdade.
A Mulher que conseguir atingir 95% de perdão de alguém ou de algum acontecimento trágico e danoso está praticamente qualificada para a beatificação, se não para a santidade. Se ela se sentir uns 75% de perdão e 25% de “não sei se vou um dia conseguir perdoar totalmente, e nem sei se quero isso”, estará mais próxima do normal. No entanto, 60% de perdão acompanhados de 40% de “não sei, não tenho certeza e ainda estou pensando nisso” já são uma atitude decididamente satisfatória. Um nível de perdão de 50% ou menos pode ser considerado como esforço em andamento. Menos de 10%? Ou você está apenas começando, ou ainda não está se esforçando.
Seja como for, quando tiver passado um pouco da metade do caminho, o resto virá com o tempo, geralmente em pequenos aumentos graduais. O aspecto importante do perdão consiste em começar e persistir. A conclusão do processo é trabalho para toda a vida. Você dispõe do resto da sua vida para trabalhar nos percentuais residuais. Na realidade, se pudéssemos entender tudo, tudo poderia ser perdoado. Para a maioria das pessoas, porém, é preciso muito tempo no banho alquímico para chegar a esse ponto. E está certo. Nós dispomos da cura e, por isso, temos a paciência para acompanhar o processo.
SEGREDO
Conte para alguém. Nunca é tarde demais. Se você achar que não consegue contar o segredo em voz alta, basta fazê-lo por escrito. Escolha uma pessoa que seus instintos julguem ser de confiança. O assunto complexo cuja abordagem lhe causa tanta preocupação estará muito melhor no mundo lá fora do que preso aqui dentro, supurando. Se preferir, procure um terapeuta que saiba lidar com segredos. Ele deverá ser uma pessoa solidária, sem nenhuma necessidade de fazer alarde sobre o que é certo e errado, que sabe a diferença entre a culpa e o remorso e tem conhecimento da natureza da dor e da ressurreição do espírito.
Qualquer que seja o segredo, agora compreendemos que ele faz parte das nossas funções para o resto da vida. O seu resgate cura uma ferida que esteve aberta, mas mesmo assim ficará uma cicatriz. Com mudanças no tempo, a cicatriz pode doer e voltará a fazê-lo. Isso faz parte da natureza da verdadeira dor.
DOR
Durante anos, a psicologia tradicional de todas as linhas considerou equivocadamente que a dor era um processo pelo qual se passava uma vez, preferivelmente no decurso de um ano, e que depois terminava. Havia algo de errado se o indivíduo não conseguisse ou não quisesse completar o processo dentro deste período. Agora, porém, sabemos o que os seres humanos sabem instintivamente há séculos: que certos danos, mágoas e vergonhas nunca acabam de ser lamentados. Sendo a perda de um filho pela morte ou pelo abandono uma das dores mais duradouras, se não for a mais duradoura de todas.
Num estudo realizado com diários escritos ao longo de muitos anos, Paul C. Rosenblatt, PhD concluiu que as pessoas podem se recuperar da pior parte da dor da sua alma no primeiro ou no segundo ano após uma tragédia, dependendo dos sistemas de apoio dessa pessoa, entre outros aspectos. Daí em diante, porém, ela continua a passar por períodos de dor intensa. Embora esses episódios passem a rarear no tempo e a encurtar na sua duração, eles apresentam praticamente a mesma intensidade de dor quase física da ocasião original.
Esses dados nos ajudam a entender a normalidade da dor a longo prazo.
HISTÓRIA
Se uma história é uma semente, então nós somos seu solo. O ato de ouvir uma história nos permite vivenciá-la como se nós mesmas fôssemos a heroína que cede diante das dificuldades ou que as supera no final. Se ouvimos uma história de um lobo, depois disso saímos a perambular e a ter o conhecimento de um lobo por algum tempo. Se ouvimos uma história de uma pomba que afinal encontra seus filhotes, então, por algum tempo depois, algo fica se movendo por baixo do nosso próprio peito emplumado. Se se trata de uma história de resgate da pérola sagrada das garras do vigésimo dragão, sentimo-nos depois exaustas e satisfeitas. Num sentido muito real, ficamos impregnadas de conhecimento só por termos dado ouvidos ao conto.
Entre os junguianos, isso se chama “mística da participação” – um termo tomado de empréstimo do antropólogo Lévy-Brhul – e é usado para designar um relacionamento no qual “a pessoa não consegue se distinguir como entidade separada o objeto observado”. Entre os freudianos, é uma atitude chamada de “identificação projetiva”. Entre os contadores de histórias, ela é chamada de “magia solidária” –querendo dizer a capacidade da mente de se afastar do seu ego por um tempo e se fundir com uma outra realidade, ali vivenciando e aprendendo idéias que ela não pode aprender em nenhuma outra forma de consciência para depois trazê-las de volta à realidade consensual.
ENTORPECIMENTO
Parece haver um entorpecimento natural que acomete os seres humanos num certo estágio da vida. Ao criar minha família e a partir do meu trabalho com o mesmo grupo de crianças talentosas ao longo de anos, percebi que essa espécie de sono se abate sobre as crianças aproximadamente aos onze anos de idade. É aí que elas começam a fazer avaliações precisas nas suas comparações com os outros. Durante esse período, seus olhos deixam de ser francos, passando à dissimulação; e, apesar de elas estarem sempre em movimento como feijões saltadores mexicanos, muitas vezes estão morrendo de um resfriamento terminal. Quer estejam sendo excessivamente desdenhosos, quer estejam se comportando bem demais, em nenhum dos dois estados elas se demonstram sensíveis ao que ocorre no fundo do seu íntimo, e um entorpecimento aos poucos encobre a natureza sensível, os olhos cheios de vida.
Imaginemos, ainda, que durante esse período algo nos é oferecido em troca de nada. Que, de algum modo, nós nos forçamos para chegar a acreditar que, se continuarmos dormindo, sairemos ganhando. As mulheres sabem o que isso significa.
Quando a mulher renuncia aos seus instintos que lhe indicam a hora certa para dizer sim ou não, quando ela renuncia ao seu insight , sua intuição e outros traços de natureza selvagem, ela se encontra, então, em situações que prometem ouro mas que acabam gerando dor. Algumas mulheres desistem da sua arte em troca de um grotesco casamento por interesse, abandonam o sonho de uma vida para ser uma boa esposa, boa filha ou boa menina, ou renunciam à sua verdadeira vocação a fim de levar o que elas esperam que venha a ser uma vida mais aceitável, mais plena e mais digna. Por esses meios e por outros perdemos nossos instintos. (…..) Outros exemplos: A mulher que se casa por motivos errados e poda sua vida criativa. A mulher que tem uma preferência sexual e se força a aceitar outra. A mulher que quer ser ou fazer algo de importante, e que fica em casa contando clipes de papel. A mulher que quer viver a vida, mas que coleciona pequenos fragmentos de vida como se fossem pedacinhos de barbante. A mulher que tem sua própria identidade, mas que entrega um braço, uma perna ou um olho ao primeiro namorado que se apresente. A mulher que tem um excesso de criatividade radiante e convida suas amigas vampiras para uma sessão de esgotamento. A mulher que precisa prosseguir com a sua própria vida, e algo dentro dela lhe diz, “ não, estar presa é estar segura”. Tudo isso é o diabo dizendo, “dou-lhe isso se você me der aquilo”, o pacto sem o conhecimento.
MÃOS
As mãos não são só receptores, mas também transmissores. Quando apertamos a mão de alguém, podemos enviar uma mensagem, e com frequência o fazemos através da pressão, da intensidade, da duração e da temperatura da pele. As pessoas que, consciente ou inconscientemente, têm más intenções apresentam toques que dão a impressão de estar fazendo perfurações no corpo da alma psíquica do outro. No outro polo psicológico, a colocação das mãos sobre uma pessoa pode aliviar, confortar, remover a dor e curar. Esse é o conhecimento da mulher através dos séculos, transmitido de mãe para filha.
CHORO
Fico perplexa com o fato de as mulheres hoje em dia chorarem tão pouco e, quando o fazem, procuram justificativas. Fico preocupada quando a vergonha ou o desábito começam a eliminar uma função natural. Ser uma árvore florida e estar cheia de seiva é essencial, se não você pode se quebrar. Chorar faz bem, e é certo. Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso.
AGIR COMO SOMBRA
Agir como sombra significa ter um toque tão suave, um passo tão leve, que torne possível uma movimentação livre pela floresta, observando sem ser observada. A loba segue como sombra qualquer um ou qualquer coisa que passe pelo seu território. É sua maneira de colher informações. É o equivalente de manifestar-se, transformar-se em algo como fumaça para voltar a se manifestar.
Os lobos conseguem deslocar-se com a máxima delicadeza. O ruído que produzem é semelhante ao dos anjos mais tímidos. Primeiro, eles recuam e seguem como sombra a criatura que lhes desperta a curiosidade. Depois, de repente, aparecem adiante da criatura, espiando com um olho dourado e metade da cabeça por trás de uma árvore. Subitamente, o lobo dá a volta e desaparece num borrão de coleira branca e rabo empinado, só para voltar a surgir às costas do desconhecido. Isso é agir como sombra.
A Mulher Selvagem vem agindo assim com as mulheres humanas há anos. Ora temos um vislumbre dela. Ora ela volta a ficar invisível. No entanto, ela aparece tantas vezes na nossa vida e sob formas tão diferentes que nos sentimos cercadas por suas imagens e seus impulsos. Ela nos chega em sonhos ou em histórias, pois quer ver quem somos e se já estamos prontas para nos reunir a ela. Se ao menos olharmos para as sombras que lançamos, veremos que elas não são sombras humanas, bípedes, mas que têm o lindo formato de algo livre e selvagem.
(….) Começamos nossa procura do selvagem, quer ainda meninas, quer já adultas, porque no meio de alguma empreitada selvática sentimos a proximidade de uma presença selvagem a nos dar apoio.
(…..) Esse é o milagre da natureza selvagem e instintual que trazemos dentro de nós. Sem o conhecimento pleno, já sabíamos. Sem a visão total, compreendíamos que uma força amorosa e milagrosa existia para além dos limites do ego em si.
(…..) Tenhamos em mente que não se pode esconder o que há de melhor. A meditação, a instrução, todas as análises de sonhos, todo o conhecimento dos verdes campos divinos não tem nenhum valor se forem guardados para a própria pessoa ou para uma dúzia de escolhidos. Portanto, apareça. Apareça, onde quer que esteja. Deixe pegadas fundas porque você pode fazer isso. Seja a velha na cadeira de balanço que embala uma idéia até que ela volte a remoçar. Tenha a coragem e a paciência da mulher na história do urso da meia-lua, que aprende a ver além da ilusão. Não se distraia queimando fósforos e fantasias como a pequena menina dos fósforos.
Não desista até encontrar a família à qual pertence, como o patinho feio. Despolua o rio criativo para que La Llorona encontre o que lhe pertence. Como a donzela sem mãos, deixe que o coração paciente a guie floresta afora. Como La Loba, colha os ossos dos valores perdidos e cante para devolvê-los à vida. Perdoe tanto quanto puder, esqueça um pouco e crie muito. O que você faz hoje influencia suas descendentes no futuro. As filhas das filhas das suas filhas irão provavelmente lembrar-se de você e, o que é mais importante, seguir seu exemplo.
Os recursos da vida com a natureza instintiva são muitos e as respostas mudam à medida que você muda e o mundo muda e por isso não se pode dizer: “Faça isso e aquilo nessa ordem exata, e tudo ficará bem”. No entanto, durante toda a minha vida sempre que encontrei lobos, tentei decifrar como conseguem viver, na maioria das vezes, em tamanha harmonia. Assim, tendo como objetivo a paz, sugiro que você comece agora mesmo com qualquer item da lista. Para quem estiver se esforçando, pode ser de grande ajuda começar pelo número dez:
NORMAS GERAIS PARA A VIDA DOS LOBOS
1. Coma 2. Descanse 3. Perambule nos intervalos 4. Seja leal 5. Ame os filhos 6. Queixe-se ao luar
7. Apure os ouvidos 8. Cuide dos ossos 9. Faça amor 10. Uive sempre


